quinta-feira, 29 de julho de 2010
Bati no meu filho e meu coração quase secou
Porque no texto abaixo tento deixar um pouco mais claro meu interesse pelo debate criado em torno da proposta de lei (PL 7.672/2010), que pretende garantir que crianças sejam educadas e cuidadas sem o uso de “castigos corporais ou de tratamento cruel ou degradante”.
Na verdade, já faz alguns anos que me preocupo com o “tema”. Para ser mais preciso desde o dia 19 de julho de 2007 quando bati no João Pedro, então com três anos e meio.
Nesse dia cheguei em casa (do trabalho) em torno das 20 horas e encontrei o João Pedro dormindo. Perguntei para a mãe dele o que havia acontecido e ela me explicou que ele havia entrado no banho lá pelas 18:30h, sem jantar, e ficou brincando na bacia por uns trinta minutos. Quando saiu, pôs roupa e pediu para ver um filme. Deitado no colchãozinho da saleta, não passou do segundo trailer.
Dormiu quase duas horas e meia, e ao acordar disse, fazendo manha, que queria comer bombom sonho de valsa. Como ele estava de férias e eu estava com saudades dele, decidi levá-lo ao supermercado para comprar chocolate.
Entre sair e voltar, levamos uns quarenta minutos.
Conseqüência: às 22 horas o João Pedro estava completamente agitado, falando alto, inventando brincadeiras e formas de chamar a atenção de seus pais cansados.
Quem tem filhos já sabe que esta é uma relação diretamente proporcional: quanto maior o seu cansaço, maior a agitação de seu filho e, portanto, o incômodo que ele causa.
Depois de quase duas horas de muitas broncas (“não faça barulho porque os vizinhos já estão dormindo” ou “porque seu irmãozinho pode acordar”, vale frisar que o Antônio tinha apenas três meses na época), pedidos de silencio e várias ameaças, decidimos ir para cama dormir. Mas o João Pedro disse: “eu quero levar meus hominhos para dormir comigo”.
Eu disse “não” e a mãe disse “sim”. Quando os pais divergem assim são os filhos que deitam e rolam.
Na cama com os brinquedos, a mãe queria contar histórias, o pai queria apagar a luz e o filho queria, é óbvio, ouvir histórias de luz acesa e brincando com seus hominhos.
O pai apagou a luz e a mãe foi buscar uma lanterna. E quem “acendeu”? Não é preciso ler Piaget para saber que o João Pedro ficou completamente aceso.
Passaram-se alguns minutos — para mim, que tentava dormir, uma eternidade — e, então, o Antônio chorou porque queria mamar. O que fez a mãe? Simplesmente disse para um menino com uma lanterna numa mão e um monte de brinquedo na outra que ficasse quieto e que esperasse ela voltar. E foi socorrer o bebê.
Eu, o pai, já sem paciência, dei a última bronca e fiz mais uma ameaça: fica quieto e dorme ou então vai dormir lá no quartinho dos fundos (escrevendo agora a ameaça parece ainda pior).
O João Pedro deu de ombros, se levantou e foi para o outro quarto atrás de sua mãe.
Bom, é preciso dizer que nessa época eu e o João estávamos dormindo no quarto de casal, na mesma cama, enquanto o Antônio e a Emiliane dormiam no quarto dos meninos para que a amamentação e as trocas de frauda não atrapalhassem a todos.
Quando eu começava a pegar no sono, ouvi barulhos fortes semelhantes a pancadas no chão: era o João Pedro com sua lanterna caminhando pela casa com seu tênis de solado duro.
Foi a gota d’água.
Peguei o João pelo braço — aí ele começou a chorar alto —, tirei seu tênis, joguei-o na cama e disse bravo com o dedo em riste: “fica quieto moleque se não quiser apanhar!” Ele, chorando ainda mais alto, começou a gritar pela mãe. Dei dois tapões na bunda dele e então entrou a mãe no quarto para resgatá-lo das minhas terríveis garras. Sem exagero, no segundo seguinte já me sentia um monstro.
E para agravar ainda mais minha derrota, a Emiliane me diz que ela é quem tinha deixado ele andar pela casa para depois ir dormir com ela.
Fiquei arrasado, me sentindo um covarde, um desses marmanjões que batem nos pequenos. Mas o que mais me doía era imaginar o que o João Pedro pudesse estar sentindo naquela hora.
Nunca saberei o que se passou pela cabeça do João Pedro, mas estou certo que sua “estrutura mental”, ou melhor, sua maturidade intelectual o levou a fazer as melhores escolhas. Pois na manhã do outro dia, aconteceu o seguinte: me sentindo um pouco menos humano, um pouco envergonhado e muito frustrado, tomei café em silêncio e antes que o João Pedro, o Antônio e a Mi se acomodassem à mesa fui me esconder no chuveiro. Enquanto me banhava, o João Pedro quis fazer cocô. Abri a cortina do banho para me enxugar e ele me abriu um sorrisão meio forçado como ele sempre faz para se desculpar.
Sem saber o que dizer e o que fazer, disse apenas: “filho dá licença para o papai passar”.
Coloquei meu “uniforme” e fui saindo discretamente; lá da porta anunciei: “tchau Mi, tchau Antonio, tchau João”.
Da saleta onde brincava o João Pedro gritou: “Papai, papai, você tá esquecendo uma coisa?”
Voltei e o encontrei no corredorzinho do apartamento, exatamente onde nasceu o Antônio, de braços abertos para me dizer em seguida: “você tava esquecendo o meu abraço e o meu beijo”. Ele se atirou em meus braços e me deu um beijo apertado. E eu finalmente aprendi.
Aprendi enfim que quem bate em criança comete duas violências a um só tempo: uma contra a criança, evidentemente, e outra contra si mesmo. Quando eu era pequeno ouvia os adultos dizerem que “quando a criança bate na mãe, a mão seca”; hoje, sei que quando o pai bate no filho é seu coração que seca.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Filhosofando com... Jean Piaget
Talvez tenha ficado um pouco vaga demais a lição contida no texto. Na próxima postagem sobre "bater para educar" tudo ficará mais claro.
domingo, 18 de julho de 2010
O lado bom das coisas aparece sempre no final
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Classificação indica-ativa - "Pro dia nascer feliz" de João Jardim
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Intra-uterinas (memórias de fora pra dentro da barriga)
Escrito em 24 de maio de 2003
"Por que Deus mandou matar as crianças [no Egito]?"
Respondi a ele que Deus era muito bravo, impaciente e excessivamente severo antes do nascimento de seu filho. Ele, as vezes, fazia coisas que ninguém entendia, por exemplo essa barbaridade de mandar matar crianças inocentes.
Mas tentei tranquilizá-lo dizendo que depois do nascimento de Jesus tudo mudou. Deus se deu conta que tinha de dar bons exemplos para seu filho e, assim, foi se transformando numa pessoa melhor.
Aí contei pra o João Pedro uma das muitas besteiras que fiz antes de ser pai para que ele mesmo concluísse que eu também tinha melhorado por sua causa.
Dia seguinte, quando fui relatar pra minha esposa a conversa com o João, veio a dúvida: será que sugeri a ele que eu também mandei matar crianças? Pior: sugeri que sou infalível porque agora sou pai? Acho que não, pelo menos é o que indicam esses últimos meses de convivências; mas na Páscoa de 2011 creio que verifico.
Feriado mineiro de 9 de julho
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Filhosofia de vida ou religião?
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Aprender a tocar violão e ensinar a dedilhar o português
Já me acostumei com o "tipo assim" e outros penduricalhos que enfeiam a prosa da moçada, nem me sinto mais ofendido quando ouço. Mas me incomoda muito quando as pessoas comem os "ésses". Tão simples, uma letrinha só na maioria dos casos.
Talvez seja um pouco de implicância minha e, quem sabe, expressão de um certo trauma. É que quando tinha uns 15 anos fiz o discurso de formatura do 1º Grau; ao fim fui efusivamente cumprimentado pelos meus familiares, mas meu tio-avô me disse: "teria ficado muito melhor se você tivesse dito corretamente o plural de todas as palavras de seu texto". Faz mais de 20 anos e me recordo com precisão da advertência.
Meu Tio Miguel ficaria bem impressionado (e creio que feliz) com o português do João.
Pois é, acho que amanhã vou dizer a ele que um aluno também pode (e deve) ensinar o professor, vou contar alguma história em que realmente fui ensinado por um de meus alunos e, por fim, vou sugerir a ele que ensine o professor a desenhar caveiras assustadoras (nós achamos a caveira que acompanha o nome da banda do professor muito simpática para uma caveira de verdade) e dizer o plural das palavras.
domingo, 4 de julho de 2010
Amor por um e por outro filho
Quanta ingenuidade, pois não só amo o Antônio muito mais do que amava o João naquela época, como esse amor pelo segundo me faz amar ainda mais meu primeiro.
sábado, 3 de julho de 2010
Intra-uterinas (memórias de fora pra dentro da barriga)
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Nossas histórinhas - Pai com gosto ruim
terça-feira, 29 de junho de 2010
I-n-c-o-n-f-e-s-s-á-v-e-i-s (o que os pais pensam, mas não têm coragem de dizer)
filhosofando com... Rousseau
Uma das “funções” do irmão mais novo
Sempre foi assim: o Antônio comendo tudo o que oferecíamos sem qualquer enrosco e o João Pedro comendo quase tudo o que oferecíamos com enorme sacrifício.
Foi assim até o início desse ano quando o João, estirando feito bambu, passou a comer que nem gente grande. Em compensação, na mesma época, o Antônio perde a boca boa e começa a refugar diante do prato.
Como conseqüência, todas as advertências que fazíamos ao João passamos a fazer ao Antônio.
Hoje de almoço teve lombo com mandioca frita. O irmão mais velho bateu o prato e foi brincar até que chegasse a hora da escola. O mais novo enrolou o quanto pôde para matar o porco e já no limite perguntou à mãe se ele podia deixar sobrar um pouquinho. Para ajudar, a mãe pegou um pedaço de mandioca do seu prato, mas Tunico ralhou e pegou outro. Ato contínuo disse que estava satisfeito.
Aí entrei na conversa para dizer que em casa não se estraga comida e, portanto, [se ele] colocou comida no prato tem que comer. Ambos reconheceram o “princípio fundamental” tantas vezes enunciado. O Antônio se calou, disfarçou e se pôs a comer. Depois de uns segundinhos, o João refletindo sobre o ocorrido disse ao Antônio: “Nenê, quando eu era pequeno isso também acontecia comigo, mas você logo aprende”.
E então me dei conta que uma das muitas “funções” do irmão mais novo é proporcionar ao mais velho oportunidades de reflexão (de pensar sobre suas próprias ações passadas projetando-se no presente do irmão). O irmão mais velho vai, assim, amadurecendo por contraste.I-n-c-o-n-f-e-s-s-á-v-e-i-s (o que os pais pensam, mas não têm coragem de dizer)
Outro dia passou pela cabeça de um velho amigo dizer para babá de seus filhos que só o incomodasse em caso de mutilação, porque a reimplantação do membro amputado precisa ser rápida.
Em caso de morte instantânea, pensou em dizer, não seria necessário entrar no escritório, pois não havendo como remediar a situação a babá deveria esperar a mãe voltar do supermercado.
segunda-feira, 28 de junho de 2010
aFoRiSmOs
Fomos à chácara do vovô para assistir o jogo com toda a turma da Loja.
Começa o hino nacional e todos se levantam. Alguns colocam a mão sobre o coração. O Antônio observa intrigado. Mas o João ao vê-lo olhando para trás curioso prontamente o repreende dizendo: "Nenê, tem que ficar de pé, é o hino do Brasil".
O Antônio obedece e se coloca ao lado do irmão, mas não deixa de questionar: "Por que João, a gente têm que ficar assim?"
"Porque a gente tá rezando pro Brasil", explicou o João.
E então minha tia foi correndo me chamar para ver os dois irmãos perfilados com a mão no peito acompanhando a execução do hino.
Intra-uterinas (memórias de fora pra dentro da barriga)
Ontem [17 de maio de 2003] lhe disse que falaríamos um pouco mais sobre a maneira pela qual você decidiu chegar. No entanto, acho que hoje não vai dar tempo. Tenho que trabalhar muito, talvez acabe o domingo sem que eu tenha conseguido concluir todas as tarefas.
Este excesso inevitável de trabalho com que tenho vivido há dois meses escureceu-me, ou melhor, dificultou-me a comemoração da notícia de sua chegada.
É que dias antes de sabermos de sua gravidez, sua mãe e eu havíamos discutido e decidido aceitar uma proposta de trabalho que me faria trabalhar o triplo. Seu pai aceitou um convite para assessorar o Prof. José Geraldo na organização do Departamento de Políticas do Ensino Superior (DEPES) no Ministério da Educação, integrando assim o Governo do Lula.
Quando você crescer e puder se apaixonar pelo seu país, certamente conversaremos sobre política e nos lembraremos com muito orgulho deste ano de 2003 como o ano do renascimento da esperança (talvez você e todas as crianças concebidas e nascidas sob a expectativa de um Brasil melhor, efetivamente democrático, sejam conhecidas como geração esperança).
Mas, neste momento, o trabalho excessivo mais me extenua do que me dignifica: são tantos os percalços no caminho que estamos obrigados a andar lentamente e olhando sempre para baixo; e para quem a vida toda caminhou com utopias isto não é nenhum um pouco agradável. Por isso, especialmente pelo trabalho a que estou me dedicando, não pude festejar de imediato a notícia de sua chegada: até fiquei triste em imaginar que não poderia ficar ao lado de sua mãe e ao seu lado como eu sempre havia sonhado.
Saiba, meu filho, que desde minha adolescência estou me preparando para recebê-lo, há mais de quinze anos que penso em ser seu pai. Por esta razão, faz quatro ou cinco dias que decidi permanecer mais um mês trabalhando com a mesma intensidade, consumindo nossos finais de semana com as tarefas acumuladas de segunda a sexta. Passado este período, se não passar o atropelo deixo o governo e me dedico apenas a você e a sua mãe.
Escrito em 18 de maio de 2003
segunda-feira, 21 de junho de 2010
domingo, 20 de junho de 2010
O José, o João e (ufa!) nenhum sinal de deus
No dia 16 de junho comecei a escrever este blog fazendo uma ref(v)erência expressa a ele e dois dias depois, na sexta, Saramago morre.
Fiquei bastante triste. E como João Pedro estava comigo no momento em que tomei conhecimento da notícia acabei dizendo a ele que estava triste.
"Ele era da nossa família, papai?", perguntou.
Respondi, "como se fosse". E expliquei ao João que existem pessoas -- quase sempre escritores -- que se tornam tão importantes em nossas vidas que os consideramos intima e afetivamente como se fossem tios, irmãos e até pais da gente: José Saramago seria, portanto, seu tio-avô.
Acho que ele entendeu porque ficou ali do meu lado de braço dado me confortando em silêncio.
São inúmeras as passagens textuais e as manifestações de Saramago que marcam minha vida, que pontuam minha própria história. Talvez a mais significativa seja uma resposta que ele deu, não sei quando e não me lembro para quem, sobre o seu ateísmo. Foi algo assim: "não sou completamente ateu, porque (ainda) fico procurando evidências da existência de deus".
Na época reconsiderei minha absoluta e pacífica descrença, pois se até Saramago se permitia a dúvida?, e me lancei à procura de sinais.
Ainda bem que, quando quis, não encontrei. Mas, confesso, que quase enlouqueci só de pensar que o "sinal" pudesse ser uma deficiência congênita no João Pedro. Dificil de lembrar, difícil de falar. Por isso interrompi a "conversa" intra-uterina" (que estou registrando aqui com o subtítulo "memórias de fora para dentro") que mantinha desde o terceiro mês de gravidez...
Mais a frente vou contar como tudo aconteceu.


