As crianças, tal como o bom-selvagem de Rousseau, nascem em condições de serem moralmente superiores a seus pais. Nós é que, em regra, impedimos que isso ocorra, oferecendo exemplos eloqüentes de nossas fraquezas como se fossem manifestações de força e superioridade. Felizmente, as vezes acontece de nossos filhos conseguirem superar os obstáculos que criamos (involuntariamente, tento me convencer) e se formarem pessoas muito melhores do que nós.
Parece que o João Pedro conseguirá. Ao menos é o que indica esta situação que vivemos há uns dias.
Minha mãe passou de casa para entregar aos meninos uma Nhá Benta para cada um.
Mas ao vê-los brincando com outro amiguinho resolveu entregar os dois chocolates a mim para que depois oferecesse apenas a seus netos. Conversávamos no escritório, eu ainda segura as caixinhas de Nhá Benta, quando o João entrou para me perguntar algo (que já não me lembro).
Na hora ele olhou para o doce e perguntou se era para ele. A vovó respondeu que havia trazido um para ele e o outro para o Antônio, porque não sabia que haveria outra criança. E eu ainda completei dizendo para ele deixar os chocolates para a sobremesa do jantar, porque só havia dois.
Como se compreendesse integralmente nossa sugestão (“não divida”), o João Pedro nos disse o seguinte, tomando as caixinhas de minha mão: “Vovó e Papai, pode deixar que eu pego uma faca sem ponta e divido o meu chocolate direitinho com o Caio. Obrigado, Vovó”. Deu um beijo em minha mãe e saiu feliz da vida.
Olhando para minha mãe meio sem graça com nossa própria inferioridade moral, só consegui dizer: "E não é que o moleque é mesmo bom de coração".
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
sábado, 29 de janeiro de 2011
A imposição das escolhas por ROSELY SAYÃO
Daqui em diante vou postar textos de outras pessoas que contenham considerações filhosóficas. Mas só de vez em quando...
Pois é: hoje, as crianças perdem esse período precioso da vida, e tão breve, porque decidimos que, quanto mais cedo elas forem introduzidas ao manuseio das ferramentas do mundo adulto, maiores serão suas chances quando tornarem-se adultas.
Essa postura, cheia de boas intenções, é um componente importante no processo em curso que promove o desaparecimento da infância no mundo contemporâneo. E você sabe, leitor, o que significa ser criança sem ter a chance de viver a infância? Não. Ninguém sabe ao certo como é a vida das crianças neste mundo. Entretanto, temos algumas pistas a esse respeito. Ansiedade, insônia, depressão, inquietação constante, medo, hipertensão, obesidade, doenças do aparelho digestivo etc., males que antes eram exclusividade do mundo adulto, hoje são frequentes na infância, inclusive na primeira parte dela.
Pressa, pressão, compromissos, deveres. Nada disso combina com os primeiros anos de vida. O que combina? Tempo, material e oportunidade para brincar, por exemplo. Ou para nada fazer: só olhar, observar, participar da vida de um modo muito particular.
Crianças dessa idade podem aprender informática, línguas, esportes, letras e números? Podem. Precisam disso? Não precisam. Pelo menos não do modo como temos feito. Criança com até seis anos aprende brincando. Mas ela não deve brincar para aprender determinado conteúdo e sim aprender algo, por acaso, brincando apenas. Simples assim.
Outro caminho para deixar a criança viver a infância a que tem o direito é não passar a ela as responsabilidades que são nossas. Não se espante, leitor: fazemos isso diariamente. Escolher a roupa que vai vestir, o brinquedo que quer ganhar, o calçado que quer usar, o horário em que vai se recolher para descansar, qual escola vai frequentar, se vai atender a imposição familiar ou se vai desobedecer... Quantas escolhas permitimos que elas façam e que deveriam ser só nossas! Vamos convir: escolher algo é um processo complexo até para um adulto, não é verdade? Quem não pena para escolher se muda de emprego ou não, se casa ou permanece solteiro, se rompe um relacionamento amoroso desgastado ou deixa a coisa rolar, se usa esta ou aquela roupa em uma ocasião especial, entre outras situações? Pois essas escolhas, que são tão importantes na vida de um adulto, porque interferem no eixo vital deles, são similares às escolhas que obrigamos as crianças pequenas a fazer. Sim: obrigamos.
Elas querem, elas pedem por tudo isso e atendemos -é assim que preferimos pensar.
Elas até podem querer, mas nós é que devemos saber o que faz bem a elas ou o que fará com que padeçam. Por não suportarmos o sofrimento que a criança experimenta quando é desagradada, temos feito com que sofram muito mais. Se você conseguir poupar seus filhos menores de seis anos do processo de fazer escolhas complexas e permitir que eles passem esses primeiros anos de vida apenas brincando sem qualquer outro objetivo que não o de se divertir, dará a eles uma vida presente muito rica. E essa é a melhor maneira de preparar um futuro melhor.
ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (Publifolha)
Folha de S. Paulo, Ilustrada, 25/1/2011
Link: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq2501201113.htm
______A imposição das escolhas______
VOCÊ TEM filhos com menos de seis anos, leitor? Que tal garantir a eles a oportunidade de viver como crianças pequenas que de fato são? Um bom começo é deixar de dar tanta importância à preparação delas para um futuro exitoso.Pois é: hoje, as crianças perdem esse período precioso da vida, e tão breve, porque decidimos que, quanto mais cedo elas forem introduzidas ao manuseio das ferramentas do mundo adulto, maiores serão suas chances quando tornarem-se adultas.
Essa postura, cheia de boas intenções, é um componente importante no processo em curso que promove o desaparecimento da infância no mundo contemporâneo. E você sabe, leitor, o que significa ser criança sem ter a chance de viver a infância? Não. Ninguém sabe ao certo como é a vida das crianças neste mundo. Entretanto, temos algumas pistas a esse respeito. Ansiedade, insônia, depressão, inquietação constante, medo, hipertensão, obesidade, doenças do aparelho digestivo etc., males que antes eram exclusividade do mundo adulto, hoje são frequentes na infância, inclusive na primeira parte dela.
Pressa, pressão, compromissos, deveres. Nada disso combina com os primeiros anos de vida. O que combina? Tempo, material e oportunidade para brincar, por exemplo. Ou para nada fazer: só olhar, observar, participar da vida de um modo muito particular.
Crianças dessa idade podem aprender informática, línguas, esportes, letras e números? Podem. Precisam disso? Não precisam. Pelo menos não do modo como temos feito. Criança com até seis anos aprende brincando. Mas ela não deve brincar para aprender determinado conteúdo e sim aprender algo, por acaso, brincando apenas. Simples assim.
Outro caminho para deixar a criança viver a infância a que tem o direito é não passar a ela as responsabilidades que são nossas. Não se espante, leitor: fazemos isso diariamente. Escolher a roupa que vai vestir, o brinquedo que quer ganhar, o calçado que quer usar, o horário em que vai se recolher para descansar, qual escola vai frequentar, se vai atender a imposição familiar ou se vai desobedecer... Quantas escolhas permitimos que elas façam e que deveriam ser só nossas! Vamos convir: escolher algo é um processo complexo até para um adulto, não é verdade? Quem não pena para escolher se muda de emprego ou não, se casa ou permanece solteiro, se rompe um relacionamento amoroso desgastado ou deixa a coisa rolar, se usa esta ou aquela roupa em uma ocasião especial, entre outras situações? Pois essas escolhas, que são tão importantes na vida de um adulto, porque interferem no eixo vital deles, são similares às escolhas que obrigamos as crianças pequenas a fazer. Sim: obrigamos.
Elas querem, elas pedem por tudo isso e atendemos -é assim que preferimos pensar.
Elas até podem querer, mas nós é que devemos saber o que faz bem a elas ou o que fará com que padeçam. Por não suportarmos o sofrimento que a criança experimenta quando é desagradada, temos feito com que sofram muito mais. Se você conseguir poupar seus filhos menores de seis anos do processo de fazer escolhas complexas e permitir que eles passem esses primeiros anos de vida apenas brincando sem qualquer outro objetivo que não o de se divertir, dará a eles uma vida presente muito rica. E essa é a melhor maneira de preparar um futuro melhor.
ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (Publifolha)
Folha de S. Paulo, Ilustrada, 25/1/2011
Link: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq2501201113.htm
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
Os braços quebrados do menino Jesus
Quem não se lembra deste soneto aí embaixo do Gregório de Matos*?
Tenho certeza que muita gente vai se lembrar do poema, porque aparece em toda antologia poética que se preze. Faz parte de apostilas e de livros didáticos utilizados para “ensinar” Literatura no Ensino Médio (antigo Colegial). Quando fiz Cursinho me recordo claramente de como era utilizado para ilustrar o emprego da metonímia, uma figura de linguagem que também caracteriza o barroco. Eis os quartetos e os tercetos:
ACHANDO-SE UM BRAÇO PERDIDO DO MENINO DEUS DE N. S. DAS MARAVILHAS, QUE DESTACARAM INFIÉIS NA SÉ DA BAHIA
SONETO
O todo sem a parte não é todo;
A parte sem o todo não é parte;
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga que é parte, sendo o todo.
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda parte,
Em qualquer parte sempre fica todo.
O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.
Não se sabendo parte desse todo,
Um braço que acharam, sendo parte,
Nos diz as partes todas deste todo.
Maravilhoso, não? Mas ainda mais bonito fez o Antônio.
Esse meu segundo filho, que não fica nem um pouco atrás do “Boca do Inferno”, tentou consertar os dois bracinhos da imagem do menino Jesus, que ele mesmo quebrou, com a seguinte prosa-poética. Vale a pena escutar.
Estávamos só nos dois em casa (acho que a Mi tinha saído pra comer lanche com o João).
De banho tomado, deixei o Antônio em seu quarto para que colocasse o pijama e fui para o banheiro esperá-lo para escovação.
Ele demorou um pouquinho mais do que deveria. Logo imaginei que estivesse envolvido com outra coisa (perigosa, em regra). Chamei : “Vem, filho, escovar os dentes para dar tempo do papai ler mais estórias”.
E lá veio ele segurando entre as mãozinhas uma imagem do menino Jesus, que fica no criado-mudo de seu quarto. “O que isso, filho?”, perguntei. “Papai, olha só o que aconteceu sem querer: quebrou os dois braços do Jesus. Você conserta, papai?”.
Não querendo encompridar a conversa, isto é, sem exigir dele maiores explicações como costumo fazer, disse que tentaria colar no dia seguinte. Podia ter encerrado o assunto, mas resolvi dizer que o menino Jesus ia ficar triste com os braços quebrados (nossa, que bobagem a minha!).
Ainda bem que, na lata, o Antônio respondeu: “Não vai não, papai. Olha só a ‘calinha’ dele de feliz. Nem doeu”.
Taí um exemplo de emenda que saiu melhor do que o soneto.
* Eis um trechinho do Esboço Biográfico escrito por José Miguel Wisnik:
“... Mas a lira dos ‘Matos incultos da Bahia’ foi realmente enriquecida no terceiro nascimento, o de Gregório, a 20 de dezembro de 1633 (ou 36), que recebeu o sobrenome materno de Guerra.
Em Coimbra, Gregório formou-se em Direito; em Lisboa teria sido, durante muitos anos, juiz do Cível, de Crime e de Órfãos, segundo as diversas informações. Aí se enfronhou nas poéticas do tempo [...] O certo é que voltou ao Brasil em 1681 [...] Um caso para o advogado Gregório: um sujeito que comprou o cargo de Juiz na Vara de Igaraçu, processou um outro por não chamá-lo pelo título. Defendendo o réu, argumenta o poeta: ´Se tratam a Deus por tu, / e chamam a El-Rei por vós, / como chamaremos nós / ao Juiz de Igaraçu? / Tu, e vós, e vós, e tu’.
A virulência da sátira do ‘Boca do Inferno’, motivada seja pela crítica da corrupção, dos desmandos administrativos, dos arremedos da fidalguia local ou pelo puro e cortante prazer sádico, lhe valeu a deportação para Angola. [...]
Há quem insista em fixar alguns gestos como a imagem da sua exorbitância: uma cabeleira postiça, um colete de pelica, uma vontade de ficar nu, um escritório adornado com bananas.
Morreu piedosamente, segundo testemunhos, em 1696.”
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Feliz Ano Novo e, finalmente, adeus Ano Velho!
Desejo um Feliz Ano Novo aos pais, às mães e aos demais malucos que, em algum momento da vida, decidiram ter filhos (mesmo àqueles que só puderam decidir depois do susto de uma gravidez não-planejada e também àqueles que ainda nem ficaram grávidos, pois o que importa é a decisão).
E eu queria mandar um beijo para a Patrícia, minha irmã, e para o Onésio que tiveram o desplante de nascer no réveillon. E para homenagear todos os amigos que fazem aniversário em janeiro — o Fernando Carvalho , a Marina Oliveira, a Tia Marta e, ontem, o Leo Barbosa — eu postei a mais bela canção que existe sobre o tema: “Feliz aniversário” de Alvarenga e Ranchinho (pena que não são os dois que cantam).
Não, não é o Ano Novo chinês que estou comemorando. O Filhosofias ainda segue o calendário gregoriano, mas, como o tempo também é uma questão subjetiva, minha “passagem” foi um pouco mais longa. E por muito pouco este blog não consegue completar a travessia de 2010 para 2011. Isto é, quase o abandonei pelo caminho.
A primeira justificativa que formulei (comigo mesmo) para acabar com o blog foi meio dissimulada, como quando a gente na adolescência pedia um tempo pra namorada só pra não ter que dizer “acabou e pronto”. Pensei com meus botões: “Vamos todos tirar umas férias e quando a Angélica, o Marcelo, a Cecília e o Murilo voltarem, nós voltamos também”.
Já a segunda justificativa foi apenas uma variação daquela velha desculpa esfarrapada da falta de tempo: “O Filhosofias ficou pesado demais, não dá para carregá-lo nas costas pelas madrugadas adentro. Vou fazer exercícios físicos de manhãzinha que eu ganho mais, ou quem sabe, perco a barriga”.
A terceira, um pouco mais honesta, foi: “Estou ficando viciado nisso, se não escrevo todos os dias e não consulto as estatísticas da audiência (quem leu, quem comentou, de que país, a que horas, etc.) parece que fica faltando alguma coisa”.
A quarta justificativa foi mais ou menos o oposto da segunda, tal como o apresentador de TV que faz de tudo para conquistar mais público e depois reclama que não consegue tomar um pileque sossegado nas areias de Copacabana sem ser incomodado pelos fãs: “Acho que as postagens acabam expondo excessivamente a mim e a minha família, além do que criam expectativas reais, ainda que os relacionamentos sejam exclusivamente virtuais. O Pequeno Príncipe estava certo quando disse aquela pieguice de ‘tu te tornas eternamente responsável pelo que cativas’”.
Formulei a quinta justificativa depois de ter lido nas férias Ana Karênina do Tolstoi e Pai e filho do Tony Parsons, que, guardadas as devidas proporções de tempo e lugar, são livros que dispensam quilos e mais quilos de blogs: “Como é que eu posso ter o descaramento de tomar o tempo de mães e de pais com essas postagenzinhas pretensiosamente perscrutadoras sabendo que existe tanta literatura de primeira-linha por aí? O Filhosofias faria muito mais pelas crianças se se dedicasse tão somente a instigar os adultos a ler Machado, Saramago, Tolstoi, Guimarães Rosa...”
A sexta justificativa que arrumei para parar de filhosofar em público foi mais uma manifestação do cabra-macho que existe em mim (meio velho, mas existe): “Cansei de conversar sobre criança; parece até que sou mãe, que assisto novela, que sei bordar, que arroto discretamente e que torço pro São Paulo. Daqui a pouco vou começar a falar dos ‘homens’ para minhas amigas leitoras como se eu fosse aquele amigo gay que toda mulher pensa que precisa ter”.
Aí quando estava pensando numa sétima hipótese para não mais escrever, compreendi que o buraco era realmente mais embaixo e que eu seria capaz de encontrar mil e uma justificativas só para não ver a assombração que, de novo, me paralisava.
Trauma
Quem acompanha o Filhosofias sabe que as postagens intituladas “Intra-uterinas” dizem respeito ao diário que escrevi durante a gravidez do João Pedro. Mas provavelmente tenha passado despercebido — até para Angélica — que comecei aquele papo sobre o aborto dizendo ao João (um bebezinho tão indefeso) que conversaríamos sobre um outro assunto ainda mais difícil tanto para mim quanto para ele.
Acontece que naquela época — mais ou menos no início da gestação — eu não tinha idéia do amor gigantesco e avassalador que fundamentaria minha condição de “pai, de verdade” ao fim dos nove meses. Por isso eu disse ao João, talvez mais como mestrando e menos como pai, que necessariamente teríamos que prosear sobre um outro assunto.
Olha só, tão espinhoso me parecia a conversa que não fui capaz, lá nos idos de 2003, de dizer claramente do que se tratava. E quanto mais me aproximava do meu filho e de seu parto, mais me sentia incapaz de tocar no assunto.
E não toquei mais. Pois, parei de escrever o diário porque já não sabia como prosseguir com meu diálogo (é quase um oxímoro, né?) intra-uterino. E fui me dedicar aos trabalhos manuais da casa e do quarto do bebê.
Contudo, depois do Apgar 3 do João (contei na postagem O parto do João Pedro) e diante dos risco de seqüelas neurológicas, frequentemente me sentia de súbito acossado por pensamentos ruins, desses que nos pegam desprevenidos e nos fazem sofrer só de lembrar (que um dia pensamos). Mais que depressa agitava a mão sobre a cabeça como se pudesse abanar e dissipar as nuvens carregadas que o medo nos traz. Era, no fundo, aquele outro assunto que não ousava enunciar.
Ano após ano via o João Pedro crescer em coragem, em bondade e em inteligência, sem qualquer problema. E, assim, com o passar do tempo fui ficando tranqüilo e seguro de que o outro assunto havia perecido.
Até que, no finalzinho de dezembro de 2010, sete anos se passaram e quando eu me preparava para finalmente falar do que nunca falei e enfrentar o trauma, sucumbi novamente: não dei conta de escrever coisa nenhuma e achei que seria mais fácil encerrar o blog do que o assunto.
Bom, evidentemente, não foi dessa vez. O Filhosofias superou o meu trauma e continuará a seguir o seu curso, firme e forte, como Frei Caneca do Amor Divino um dia sonhou.
Saravá.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
De volta
Estamos de volta! Depois de um curto e caloroso verão, voltamos todos ― João Pedro, Antônio, Emiliane e eu ― para fechar este ano e abrir o próximo.
Nesses últimos dias aconteceram tantas coisas e foram tantos os ensejos filhosóficos que não sei nem por onde começar.
Não, talvez eu saiba...
Vou recomeçar mostrando o presente que ganhei no Natal.
Dia 24 de dezembro, lá pelas oito da noite, eu e os meninos estávamos deitados na cama para assistir minha namorada (que é como eles tratam a mamãe e esposa do papai) se aprontar para a ceia quando, de repente, o João Pedro me presenteia com este verso:
“Papai, o meu pé é que nem o da mamãe, mas eu sou igualzinho a você!”.
Nesses últimos dias aconteceram tantas coisas e foram tantos os ensejos filhosóficos que não sei nem por onde começar.
Não, talvez eu saiba...
Vou recomeçar mostrando o presente que ganhei no Natal.
Dia 24 de dezembro, lá pelas oito da noite, eu e os meninos estávamos deitados na cama para assistir minha namorada (que é como eles tratam a mamãe e esposa do papai) se aprontar para a ceia quando, de repente, o João Pedro me presenteia com este verso:
“Papai, o meu pé é que nem o da mamãe, mas eu sou igualzinho a você!”.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Crianças com deficiência, pais especiais
Anteontem soube pelo blog da Melina (O lado M de mamãe) que em 3 de dezembro se comemorou o dia internacional do deficiente físico.
Ontem, por coincidência, conversei ao telefone com Claudia Werneck que há anos escreve, reflete e trabalha muito pela inclusão de crianças com deficiência. Ela é Superintendente Geral da Escola de Gente, uma das mais corretas ONGs que já conheci (e posso dizer que conheço “profundamente” algumas centenas de organizações não governamentais, porque trabalhei durante anos avaliando a contabilidade e qualificando as ações de todas as OSCIP federais e de grande parte das entidades filantrópicas). A Escola de Gente – Comunicação em Inclusão foi fundada em abril de 2002 “por profissionais de comunicação e ativistas [...] a favor da inclusão de grupos em situação de vulnerabilidade na sociedade, especialmente crianças, adolescentes e jovens com deficiência”.
Curiosamente, não falamos sobre o tema. Tratamos de outros assuntos menos relevantes, mas não menos urgentes.
Hoje, a Mi me deu boas notícias da primeira cirurgia (outras oito estão previstas) a que teve de submeter o filho mais novo de um casal de amigos. Disse-me, também com os olhos, o quanto ela admira a força, a coragem, e a determinação dos pais de uma criança com algum tipo de deficiência.
Há quem se refira por pura delicadeza às crianças com deficiência como “crianças especiais”. Tudo bem, pois neste caso a intenção também vale e todo cuidado é pouco. Mas, no fundo, acho que são os pais dessas crianças que são mesmo especiais.
Evidentemente, nem todos os pais nascem assim. Muitos vão se tornar, em razão do amor e da atenção especial que seus filhos requerem. Não sem sofrer, não sem esmorecer, não sem duvidar e, sobretudo, não sem reconhecer seus próprios limites e suas inúmeras deficiências. O filho eterno, livro de Cristovão Tezza, e também o filme-documentário Do Luto à Luta, de Evaldo Mocarzel, tratam com franqueza das dificuldades que os pais devem enfrentar e superar até se tornarem — sem querer — pessoas especiais (para seus filhos e para todos nós).
Sei que nem todos os pais dão conta do recado. Alguns tentam fugir do “problema” e abandonam seus filhos. Outros, que não podem fugir, amargam uma vida de isolamento e renúncias forçosas para tentar esconder o “problema”. Por outro lado, mas nessa mesma linha, há pais que promovem a superexposição de seus filhos para que sejam considerados especiais, ou melhor, para que recebam (meio que por tabela) a atenção, a comiseração e a compaixão das pessoas próximas. Agem de modo que a deficiência do filho os projete socialmente como pessoas predestinadas (por Deus?) a serem especiais e, portanto, melhores do que realmente são. Só não causa abjeção porque, quase sempre, tal comportamento é decorrência de uma grave patologia. Tive o azar (ou a sorte, não sei) de conhecer um único caso.
Felizmente, tenho encontrado pelo caminho muitos pais verdadeiramente especiais, que fazem da paternidade e da maternidade de crianças com deficiência um patamar de amor e civilidade que todos deveríamos tentar alcançar. Basta levar a condição de pai/mãe a sério para descobrir e viver o festejado amor incondicional. Todavia, creio que o patamar erguido e sustentado por esses pais especiais está bem mais além do incondicional: suspeito que esteja naquele mais alto ponto do mais azul do céu que só pode ser visto com os olhos do coração.
Segue a Parte 2 do documentário do Luto à Luta disponível integralmente no youtube:
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
1ª Exposição de "Arte" dos Meninos
Estes são os 10 convites que João Pedro e Antônio prepararam para oferecer aos seus familiares e amigos. São poucos para distribuir, mas o suficiente para convidar a todos que queiram conhecer tanto o espaço de arteterapia Bem Me Quer quanto o "trabalho" deles (e de outros meninos e meninas).
"Eu já sei de tudo!"
Outro dia, tomando banho com o Antônio, tentei corrigi-lo pela última vez quanto ao emprego do pronome oblíquo "mim" como sujeito do verbo no infinitivo.
Ele me disse: "Papai, pega o sabão pra mim lavar o chão".
Como de costume, repeti sua frase de acordo com os padrões cultos da língua portuguesa (embora Celso Cunha e Lindley Cintra, autores de minha gramática predileta, já autorizem o uso da forma oblíqua) dizendo: "Para eu lavar o chão".
E é claro que ele retrucou: "Não, papai, não é para você; é para mim lavar".
Acho que esta competência para perceber a distinção ele só vai adquirir depois dos cinco anos.
Por ora, desisti.
No entanto, ele já é capaz de perceber as palavras que saem errado. Por exemplo: hoje ele tentou dizer "esmagar" e saiu "esgamar"; além do mais, ele ainda não consegue pronunciar o "r" entre consoantes (diz "tiste", "pato" e "bulaco" ao invés de "triste", "prato" e "buraco") e ao final da palavra o "r" tem som de "i" ("apontador" soa "apontadoi"). Minha família, em especial minha mãe e meu tio Betão, adoram ouví-lo falar errado. E realmente é engraçadinho. Mas eu não me dobro e sigo repetindo corretamente depois dele: ele me pede para desligar o "computadoi" e eu digo que já vou desligar o computadoR.
Bom, voltando ao banho, chamei a Mi para enxugá-lo e, então, ele fez alguma coisa errada (faz apenas três dias e não me lembro). A mãe o repreendeu e ele começou a chorar sentido. A Mi tentava explicar, mas ele repetia sem cessar: "Mamãe pála de fala, eu já sei de tudo... eu já sei de tudo... eu já sei de tudo, mamãe".
O pior é que as vezes eu desconfio que eles sabem mesmo. Nós é que não.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Comentário n'o lado M de mamãe...
Era para ser um comentário no blog da Melina, o lado M de mamãe... , sobre o texto de ontem em que ela trata de agressões na escola. Mas como estou de férias e um pouquinho resfriado, fui escrevendo, escrevendo e virou esta nova postagem.
Em julho de 2008 registrei no Livro dos Meninos (meu quase diário de bordo) que presenciei a Emiliane esbravejando com o João Pedro — que na época tinha 4,5 anos — porque ele havia apanhado do Tutuzinho (a criança mais nova da sala dele, então com uns 2 anos e pouco) com um pedaço de pau. Vi o corpo dele todo marcado pelas pancadas e fiquei injuriado.
As pauladas extrapolavam em muito nossos limites, embora soubéssemos que o Tutuzinho batia com freqüência em todas as crianças mais velhas — estávamos acostumados com uma mordida, um arranhão, um tapa e outras “lesões corporais leves”. Afinal de contas, podiam ferir gravemente.
Mas, naquele momento, o problema para gente não era o Tutu bater: já vínhamos discutindo regularmente o “caso” nas reuniões de pais, mães e professoras (os pais do Tutuzinho eram super tranqüilos e excelentes pessoas) que aconteciam todo mês na Moara, nossa escola Waldorf de Brasília. O problema era que João Pedro não havia reagido como ensinamos: se afasta do perigo evitando a agressão e avisa a professora; pronto. Nunca diríamos para ele bater de volta (“olho por olho”), mas de modo algum queríamos que ele apanhasse.
E para piorar parecia que ele não estava dando a mínima para nossa conversa, pois enquanto falávamos João tentava se distrair. Então, quando ele nos deu as costas para ir brincar, eu perdi a paciência. E num salto o segurei firme pelo braço e lhe dirige em tom ameaçador a pergunta mais cretina de minha vida: “— Afinal, João Pedro, você gosta de apanhar?”
Na lata ele me respondeu: “— Gosto”.
Fiquei com cara de bunda e depois passei dias, inconsolável, pensando um bocado de besteiras do tipo “estou criando um maricas” ou “melhor trocar o Bambi pelo Rambo IV” ou “vai pro colégio militar amanhã” e por aí fui.
Demorou um tempinho até que eu pudesse me dar conta de que para o João Pedro a paulada do Tutuzinho não era uma violência. Logo eu que vivia defendendo a “perspectiva da criança” não havia me dado o trabalho de tentar compreender qual o significado do ato para o João. Equivocadamente, tentei forçá-lo a ver como eu via: risco iminente de morte.
Hoje tenho certeza que ele consegue distinguir suficientemente uma brincadeira perigosa de uma violência mesmo moderada. Não faz muito tempo, contei aqui, na postagem Entre tapas e beijos, como ele se safou da ameaça de um amiguinho.
Com o Enzo a coisa me parece um pouco diferente. Talvez mais fácil por um lado (dele) e mais difícil por outro (de menina e da escola).
Mais fácil porque se o Enzo te contou que levou uma mordida acho que ele queria saber se isso é certo ou se é errado para você, o que também significa que ele apreendeu os significados que sua família atribui a mordidas e a arranhões em geral (imagino que ele tenha ouvido, noutras ocasiões, que é errado). Isto é, você não precisa se preocupar em dizer a ele exatamente o que fazer porque ele (é o que me parece) já assimilou uma regra de conduta ainda mais complexa do que a autodefesa: o que é errado deve ser evitado ou então corrigido. Pode ficar tranqüila e orgulhosa com essa aquisição evolutiva.
O outro lado, mais difícil a meu ver, é aonde desconfio que está o perigo: a professora e/ou a escola não estão preparadas para fazer do fato “menininha que bate” uma oportunidade pedagógica para todos, sobretudo para os pais da criança. No fundo, a educação escolar ainda não sabe o que fazer com o conflito (da perspectiva do adulto). Aqui em Catanduva infelizmente não há uma única escola que tenha estruturas e rotinas capazes de transformar problemas eventuais em possibilidades de formação e transformação de professores, pais e alunos. Isso inclui o nosso Colegião. Quando me refiro a estruturas e rotinas estou pensando em coisas simples do tipo reuniões periódicas, encontros semanais e atividades conjuntas que nos permitam conversar, trocar idéias, resolver problemas e planejar conjuntamente o futuro dos nossos filhos. Ou não. Pode ser que numa dessas ocasiões a gente se dê conta que os pais dos coleguinhas de nossos filhos não valem uma conversa sobre o clima (“vai chover?”). Mas aí, pelo menos, a gente não hesita em chamar o Conselho Tutelar para dar conta do recado. Brincadeirinha.
Apesar de tudo, resta a esperança de que a mãe da menininha e a coordenadora pedagógica da escola do Enzo leiam o seu blog. Pensando bem, vou mandar um e-mail recomendando a leitura. Tudo bem?
PS: Em tempo, quando fui com a Mi “conhecer” a Coordenação do Infantil do Colegião perguntei diretamente como a escola lidava com conflitos e exemplifiquei com agressões entre crianças. Na Moara, em 2005, além de perguntar a mesma coisa também questionei o nível de inadimplência, pois queria saber se a existência de uma comunidade escolar (formada por pais, alunos e mestres) resultava na prática em pagamentos em dia, em respeito com os profissionais e com os demais pais.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Lista do que cada moleque realmente precisa...
Conto os anos de minha experiência como pai somando as idades do João Pedro e do Antônio: 7 de um com 3,5 do outro e lá vou eu para a segunda década de paternidade. Faço desse jeito porque cada filho é um universo, é uma pessoa com suas singularidades. Ou seja, não dá para ficar repetindo com o segundo (e com o terceiro, e com o quarto... pra quem tem coragem) apenas aquilo que deu certo com o primeiro. O desenvolvimento intelectual, físico e moral de uma criança exige plano próprio e específico. Não à toa as boas escolas de hoje vivem se desdobrando para tentar conciliar a execução de seus Projetos Político-Pedagógico com a formação peculiar de cada um; e, no entanto, sabem que não há chance alguma de acertar, por maior que seja o esforço, sem a participação dos pais e das próprias crianças. Resumindo bastante, cada criança precisa de um plano de educação individual para ser realizado em coletividade, isto é, que lhe permita desenvolver ao mesmo tempo sua autonomia privada (como pessoa) e sua autonomia pública (como cidadã).
Certa vez ouvi de um pedagogo português, Antonio Nóvoa, uma recomendação intrigante: desconfie desses professores que proclamam de boca cheia (e com um certo fastio) terem "mais de 30 anos de experiência", porque, na maioria das vezes, eles experimentam o desafio da educação de crianças apenas nos primeiros anos de magistério e nos demais vão repetindo o que "deu certo". O mesmo pode se aplicar aos pais com mais de um filho. Antigamente, numa família de oito filhos como a do meu pai, aceitava-se -- por razões de época -- que os mais velhos repassassem aos mais novos aquilo de bom que haviam aprendido. Quem brincou de telefone-sem-fio pode imaginar quais as consequencias disso tudo. Por outro lado, também não estou reforçando a tese de que cada filho deva ser criado como se fosse único, ou melhor, como filho único. Justamente porque as famílias no mundo e no Brasil estão diminuindo de tamanho (segundo o IBGE a média de filhos em 2001 era de 1,6) entendo que o convívio (as vezes desregrado) entre crianças diferentes vai se tornando cada vez mais necessário, necessariamente um projeto coletivo.
Enfim, não estou negando a existência de princípios, de condutas e mesmo de algumas coisas que possam ser atribuídas às crianças em geral. Claro que há. Aqueles best-sellers sobre filhos, do tipo "Como criar meninos" ou "Receita para fazer uma criança feliz" ou "Transforme seu filho num milionário de sucesso (já na gestação)", estão cheios de generalizações que costumam ajudar, desde que não os consideremos verdadeiros manuais de instrução para a educação do Enzo, da Aina, da Maria Fernanda, do Miguel, do Lucas...
Bom, por mais intensa que pareça ser a experiência com os meus dois meninos não me sinto em condições de enunciar generalizações educacionais ou quaisquer outras fórmulas que o valham. Acho que consegui, contudo, ao fim desses últimos 10 anos de paternidade, montar uma lista do que cada moleque precisa para chegar até os 7 anos de idade com saúde (ainda que com algumas fraturas, cicatrizes e pequenos traumas). A seguir os primeiros dez itens:
1. Ter mãe e pai (mesmo em casas separadas, que significam por extensão: amor, exemplos, limites, história, etc.);
2. Saber nadar;
3. Saber se limpar (principalmente, o próprio pipi);
4. Saber se defender (ou, simplesmente, não apanhar);
5. Ter uma boa lanterna (não vale as de brinquedo);
6. Ter um pedaço de corda (mais ou menos com dois metros);
7. Não ter medo de cavalo;
8. Ter um melhor amigo (muito melhor se for também primo);
9. Saber acender e apagar fósforos (no fundo, controlar o fogo);
10. Ter um belo canivete (sabendo que só poderá usar quando fizer 10 anos);
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Trigêmeos
Estamos em férias. A primeira vez desde que acabou o doutorado. Eu, a Mi, os meninos, meus sogros, minhas cunhadas e meu concunhado. No fundo, bem no fundo, só estamos eu e os meninos, porque não seria justo (se não fosse assim) depois tê-los feito esperar tanto. A Mi não só entende como fica feliz em nos ver assim juntos, feito o mar, o céu e o vento.
Ela cuida da gente (passa protetor solar, nos dá de comer, coloca no banho...) como se fossemos três crianças, três irmãos: seus três filhos, seus trigêmeos. Eu também adoro me sentir irmão do João e do Antônio durante a maior parte do dia.
Cheguei um dia a sonhar com um pouco menos do que isso. Nossa! A vida surpreende mesmo.
Quando li no final da adolescência O apanhador no campo de centeio (de J. D. Salinger) sonhei que a paternidade pudesse ser algo como esta “função” imaginada e descrita por Holden (o protagonista do livro):
[...] ¾ Seja lá como for, fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto ¾ quer dizer, ninguém grande ¾ a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que queria fazer. Sei que é maluquice.
Acho que achei que ser pai seria como passar o dia todo brincando como criança com meus filhos à beira de um precipício. De alguma forma suspeitava do tamanho da responsabilidade que a paternidade implicava, ainda que extremamente prazerosa e absolutamente gratificante.
Mas hoje, enquanto escuto a respiração dos meninos dormindo se conjugar em harmonia com o barulhinho das ondas, vou descobrindo que ser pai é ainda maior.
domingo, 28 de novembro de 2010
I-n-c-o-n-f-e-s-s-á-v-e-i-s (o que os pais pensam, mas não tem coragem de dizer)
Direto dos Classificados deste domingo:
PROCURA, para os fins de semana, bela babá capaz de amar profissionalmente seus filhos durante o dia e, o pai pela noite. Exige-se experiência (nos dois sentidos). Enviar currículo com fotos abundantes para [...].
Compreensível?
Pai divorciado
PROCURA, para os fins de semana, bela babá capaz de amar profissionalmente seus filhos durante o dia e, o pai pela noite. Exige-se experiência (nos dois sentidos). Enviar currículo com fotos abundantes para [...].
Compreensível?
domingo, 21 de novembro de 2010
O parto do Antônio
Primeiro vou deixar que a Mi, com sua poesia, conte como foi o parto do Antônio.
Depois apresento minha versão dos fatos, que não é muito diferente: muda apenas a perspectiva.
Ela escreveu o relato abaixo para a seção "Deu errado, mas deu certo" da revista Pais&Filhos. O texto foi publicado na edição de setembro de 2008.
Ainda hoje me dá frio na barriga só de lembrar...
Depois apresento minha versão dos fatos, que não é muito diferente: muda apenas a perspectiva.
Ela escreveu o relato abaixo para a seção "Deu errado, mas deu certo" da revista Pais&Filhos. O texto foi publicado na edição de setembro de 2008.
Ainda hoje me dá frio na barriga só de lembrar...
Aconteceu numa segunda-feira de manhãzinha, onze dias antes da data prevista para a chegada do nosso segundo filho, estava grávida de 38 semanas e naquele dia levaríamos à maternidade o plano de parto natural; mas às quatro e meia da madrugada acordei sentindo as primeiras contrações.
Meu marido, José Eduardo, estava dormindo. Uma hora depois do início do trabalho de parto comecei a sentir fraqueza e muito frio, então resolvi acordá- lo. Pedi que ele colocasse um colchonete no corredor de casa e ali fiquei sentindo as contrações, fazendo as respirações e posições que aprendi com a doula que acompanhou minha gravidez.
O trabalho de parto foi ficando cada vez mais intenso; meu marido ligou para o médico e naquele instante percebi que teria o bebê ali, pois senti a cabeça dele coroando e o líquido da bolsa escorreu de uma só vez. O médico, então ao telefone, disse que estava a caminho de casa.
Após falar com o médico, o Du pediu ajuda ao 192, e ainda teve de convencer o atendente que não estava exagerando, dizia que não era pai de primeira viagem e que o bebê estava mesmo nascendo.
Assim que desligou o telefone, ajoelhou-se para amparar nosso bebê, numa contração passou a cabeça e na contração seguinte escorregou nas mãos do pai. E assim veio à luz o Antônio, às 6 horas e 20 minutos daquela abençoada manhã, no corredor de casa e pelas mãos do meu marido.
Ele enrolou nosso bebê num lençol, o colocou em meus braços pra que eu o mantivesse aquecido e foi, mais uma vez, pedir ajuda.
Nesse momento pude ver o rosto do meu filho, ele estava chorando alto e forte. Olhei fundo nos olhos do Antônio, segurei a mãozinha dele e pedi que ficasse tranqüilo, pois eu sentia que estava tudo bem, nós dois estávamos bem. Sua pele enrugada e seus olhinhos miúdos, ora curiosos, ora desconfiados e incomodados pela suave claridade (que chegava ao corredor do nosso pequeno apartamento), me fizeram derramar algumas lágrimas.
O cordão umbilical permaneceu nos ligando durante todo tempo que estivemos ali imóveis, nos olhando e esperando. Quando o cordão havia parado de pulsar eu e o Antônio já nos conhecíamos profundamente.
Devo ter rezado duzentas Ave-Marias em trinta minutos, o tempo que levou do nascimento à chegada do médico e da ambulância. Imaginamos que um dos dois poderia chegar antes. Chegaram juntos.
Nesse momento o cordão foi finalmente cortado, o Antônio mamou bastante, conheceu seu irmão, João Pedro (que acordou sozinho como se nada tivesse acontecido ali, bem ao lado da porta do seu quarto), e adormeceu.
Avisamos nossa família, arrumamos tudo e fomos para o hospital. Lá, o Antônio pesou 3,1kg, mediu 49cm e tomou seu primeiro banho. Ele era um recém-nascido saudável e de muita sorte. Hoje ele está com 1 ano e 6 meses, é um bebê doce, tranqüilo, bonito e inteligente, que adora brincar e bagunçar com seu irmão.
Foi uma vivência forte, inesquecível e maravilhosa. Guardo uma sensação como se tivesse sido tocada por uma Luz Divina, tamanha a intensidade e sincronia de cada detalhe durante o trabalho de parto e o momento do nascimento, em especial.
Mãe, pai e filho pulsando juntos. Eram três corações batendo como se fossem um. Tinha tudo pra dar errado só que deu muito certo, mais do que havíamos sonhado.
Prova de que deu certo e de que continua dando: Antônio e João Pedro.
sábado, 13 de novembro de 2010
Circular do cordão umbilical
Todo mundo já sabe que vivo falando para os meus filhos que eles são guerreiros porque são inteligentes, fortes e têm bom coração. E digo também que a primeira grande batalha de cada um foi vencida no parto, porque nasceram lutando. Sobre a batalha, ou melhor, sobre o parto do João Pedro falei recentemente. Já sobre o triunfo do Antônio, falo amanhã.
Por hoje quero registrar que foi minha mãe quem começou com essa hestória de meninos guerreiros que lutam pra nascer. No fim das contas, com o João e com o Antônio, estou apenas escrevendo os dois capítulos que me cabem.
Nos momentos difíceis minha mãe fazia questão de me lembrar que eu havia nascido com duas circulares do cordão umbilical no pescoço e por muito pouco não tinha morrido. Com orgulho e os olhos rasos d’água, ela, então, costumava contar a hestória de meu nascimento com vida ou a história de como venci a morte ainda bebezinho.
É que há trinta e sete anos a circular do cordão era sinônimo de complicação no parto e de risco de morte para o nascituro, assombrando pais e médicos. Hoje em dia sabemos que não só as circulares são comuns (ocorre de 30 a 40% dos partos) como não trazem grandes perigos, embora tenha muito pai e mãe se descabelando desnecessariamente com a ultra-sonografia que antecede o trabalho de parto.
Na Catanduva de 1973 ainda nem se falava em ultra-sonografia obstétrica e, por isso, minha mãe só veio a saber que eu tinha as duas circulares no pescoço — e que era um menino — quando eu já estava em seus braços são e salvo. Durante o trabalho de parto ela se lembra apenas do Dr. Waldemar Curi pedindo para fazer força: “Vamos turca! Até parece que não come quibe.” Isso ajuda a entender o relato histórico que minha mãe foi construindo enquanto eu crescia, diga-se de passagem, a bem de minha auto-estima. Pois, pelo que ouvia de minha mãe e para minha ignorância de menino, julgava-me uma espécie de Super-Tiradentes: afinal havia me safado da forca "quase" sozinho.
Os anos se passaram e quase me esqueci dessa minha própria hestória. Até que um dia, no início do casamento, a Mi resolveu me questionar sobre meu “estranho hábito de enrolar o lençol em volta do pescoço” enquanto dormia.
Na hora fiquei surpreso, porque ela me perguntava como se eu soubesse que o lençol amanhecia todos os dias enrolado ao redor de meu pescoço. E quando eu disse que nunca havia reparado nisso, foi ela quem ficou pasma.
Refleti um tempo sobre o “hábito” e concluí que, de fato, devia ter sido tão marcante aquela experiência de nascer com o cordão no pescoço que, ao adormecer, automática e inconscientemente recriava aquela relação fazendo uso do lençol. Dei por resolvido o enigma e, mais uma vez, deixei toda hestória de lado.
No entanto, fui “surpreendido novamente” em 2002, quando fomos a uma festa no Terreiro de Mãe-menininha-do-Gantois, em Salvador. Lá finalmente descobri que as crianças nascidas com circulares do cordão umbilical são filhas do velho Oxalá, conhecido como Oxalufã. Gostei e fiquei feliz com a descoberta, mas não retomei a hestória iniciada por minha mãe.
Aí, em 18 de dezembro de 1973, o João nasceu com a sua circular do cordão. E me dei conta de que era chegada a hora de assumir a minha responsabilidade nessa hestória. E que Oxalá me dê forças para seguir o curso.
Comentando comentário - São Jorge é de Ogum e do Gantois
Não é segredo pra ninguém que da Angélica aceito até provocação barata.
Pois é, ela fez um comentário só pra me dizer que “Jorge é de Capadócia...”.
Dá pra acreditar?
Vai dizer isso logo pra mim que o conheci pessoalmente. Foi o próprio Jorge quem me disse: “sou baiano, ou melhor, soteropolitano, de Federação e, para ser exato, do Gantois”. Me disse ainda que “apesar disso, era um santo modesto”.
Enfim, não há dúvidas que São Jorge é de Ogum e do terreiro do Gantois, de Ilê Iyá Omin Axé Iyá Massê.
Aliás, o Antônio, meu segundo filho, também é de Ogum. Mestre das armas, dos metais e da guerra foi dormir depois de me pedir desculpa por ter chutado minha nuca durante nossa brincadeira de luta. Antes, tentou cortar o meu pescoço com sua espada, mas felizmente a espada é de plástico. Esta foi mais uma sexta-feira que eu escapo da degola.
O João Pedro quando ainda era pequenininho foi reclamado nos búzios por Xangô, meu pai e meu rei. Mas como o pai-de-santo era meio chinfrim, não me convenci. Embora ele tenha a nobreza dos filhos de Oba e os olhos de Iansã. No fundo, só não o entrego Xangô porque ele nasceu com as circulares do cordão umbilical no pescoço, que é o signo de Oxalufã. Como tenho respeito e apreço pelos mais velhos, acho bom esperar por um gesto do velho Oxalá.
Pois é, ela fez um comentário só pra me dizer que “Jorge é de Capadócia...”.
Dá pra acreditar?
Vai dizer isso logo pra mim que o conheci pessoalmente. Foi o próprio Jorge quem me disse: “sou baiano, ou melhor, soteropolitano, de Federação e, para ser exato, do Gantois”. Me disse ainda que “apesar disso, era um santo modesto”.
Enfim, não há dúvidas que São Jorge é de Ogum e do terreiro do Gantois, de Ilê Iyá Omin Axé Iyá Massê.
Aliás, o Antônio, meu segundo filho, também é de Ogum. Mestre das armas, dos metais e da guerra foi dormir depois de me pedir desculpa por ter chutado minha nuca durante nossa brincadeira de luta. Antes, tentou cortar o meu pescoço com sua espada, mas felizmente a espada é de plástico. Esta foi mais uma sexta-feira que eu escapo da degola.
O João Pedro quando ainda era pequenininho foi reclamado nos búzios por Xangô, meu pai e meu rei. Mas como o pai-de-santo era meio chinfrim, não me convenci. Embora ele tenha a nobreza dos filhos de Oba e os olhos de Iansã. No fundo, só não o entrego Xangô porque ele nasceu com as circulares do cordão umbilical no pescoço, que é o signo de Oxalufã. Como tenho respeito e apreço pelos mais velhos, acho bom esperar por um gesto do velho Oxalá.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
Homem precisa viajar
Para Aurinha
Li o livro Mar sem fim de Amyr Klink por causa deste trechinho que conheci numa apostila escolar (era uma questão de vestibular) de minha sobrinha Paola:
Hoje entendo bem meu pai. Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.
Não é preciso dizer que o livro de Amyr tem outras tantas coisas bonitas de ler e de ver (desenhos de baleia, fotos de geleiras, cartas náuticas e uma foto de suas filhas na praia de Jurumirim...). Mas esse pedacinho aí de cima considero especial. Vale um quadro e muito mais.
Porque essas palavras contêm uma sabedoria antiga, transmitida de pai para filho há séculos. As palavras revelam e, ao mesmo tempo, preservam a essência do que somos nós, os homens.
Estou me referindo a homens como gênero. À essência do que é masculino, desde a antiguidade. E olha que sou cheio de pruridos para falar em essência, porque acredito piamente que os seres humanos são aquilo que querem ser, nos limites da História, evidentemente. Talvez seja a única exceção que eu faça: um homem se constitui dessa necessidade de viajar, de se conhecer nos limites seus e do mundo.
Sem forçar a barra é possível encontrar evidências em todas as culturas e em todos os tempos. Do nomadismo à volta de bicicleta no quarteirão, passando pelas grandes navegações. Um homem [é aquele que] precisa viajar.
Para “criar meninos” é fundamental saber disso. Meu pai, com sua simplicidade, soube me soltar e me deixar partir. Mas sempre cuidou para que eu voltasse, ou melhor, para que eu não morresse na jornada (o ponto não é atrair o filho para a casa, mas cuidar para que fique vivo e possa retornar). As vezes de um jeito sutil — me dizendo “sua cabeça é seu mestre” —, as vezes de forma contundente — pedindo a alguém para zelar por mim.
É o que tento agora fazer pelos meus filhos.
_____________________________
O mais engraçado é que sendo um “homem do caminho”, como me revelou em 1992 uma cigana da rua General Jardim lá de São Paulo, agora que sou pai fico angustiado só de pensar em viajar sem os moleques.
Não gosto de dormir fora da casa. Volto sempre, nem que seja muito tarde; chego, pelo menos, a tempo de cobrir os meus filhos e apagar a luz do corredor.
Comentando comentário - bati no meu filho...
Aurinha,
Por mais que eu queira, certamente não vou conseguir dimensionar o que você está sentindo. Mas, acredite, posso compreendê-la. E mesmo sem saber o que exatamente aconteceu — a gravidade do que ele fez —, sinceramente acho que reagiria do mesmo modo.
Mas é preciso admitir que foi uma reação emocionada, passional, em resposta à violência que ele, de alguma forma, produziu contra você e contra ele mesmo. Me parece que é importante reconhecer um certo descontrole momentâneo (embora você tenha agido com coerência e racionalidade ao cumprir a “ameaça”, ao impor a sanção do tapa) até para que você consiga dar um segundo passo e caminhar em busca de uma solução para o problema, sem ficar se penalizando pelo ocorrido.
No entanto, admitindo que os pais nem sempre podem oferecer o melhor auxílio aos seus filhos em situações extremamente delicadas (por isso é provável que o melhor médico-cirurgião do mundo não seja a melhor pessoa para operar seu filho vitimado por um acidente), talvez seja a hora de buscar o auxílio de um terceiro, de uma outra pessoa que não esteja diretamente envolvida no conflito.
Como você sabe, meus filhos ainda são crianças, mas quando nem sonhava em ser pai de meninos tive a oportunidade de agir como um terceiro (um mediador) em conflitos entre pais e adolescentes. No caso mais difícil pelo qual passei, também porque foi o primeiro, tentei ajudar uma mãe e seu filho adolescente a restabelecerem a comunicação já profundamente degradada: primeiro pelas drogas e depois pelas agressões mútuas. Como não havia um pai entre os dois, acho que pude ajudá-los a dar o próximo passo. Procure ajuda, compartilhe a sua dor, seus medos e, eventualmente, sua frustração por ele não ser o que você gostaria que ele fosse (e vice-versa).
Infelizmente, não há processo de maturação sem algum sofrimento. É claro que por isso não vamos desejar sofrer, mas é preciso acreditar que o conflito é também uma oportunidade de aprimoramento pessoal e que todo esforço de superação nos faz necessariamente mais humanos, mais capazes de refletir sobre as conseqüências de nossos próprios atos.
Coragem e tenha fé no seu amor.
domingo, 7 de novembro de 2010
Oração de São Jorge de Ogum
(Wassily Kandinsky - São Jorge I, óleo sobre tela, 1911)
Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer mal. Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar.
Glorioso São Jorge estenda-me o seu escudo e as suas poderosas armas, defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza, e que debaixo das patas de seu fiel ginete meus inimigos restem subjugados.
Assim seja com o poder de Deus, de Jesus e da legião do Divino Espírito Santo.
São Jorge Rogai por Nós. Oguniê, saravá!
sábado, 6 de novembro de 2010
A capa mágica invisível
Disse na postagem abaixo que não encontrei o registro que procurava sobre uma birra antiga, mas encontrei este outro fato que me fez refletir sobre a importância das coisas que contamos aos nossos filhos.
O que vou contar a seguir diz respeito àquele período — de março a novembro de 2009 — em que “vivi” longe da Mi e dos meninos: passava a semana trabalhando em Brasília e ficava os sábados e os domingos em Catanduva. Os registros foram feitos nos dias 27 (quinta-feira à noite) e 28 (sexta-feira de manhã) de agosto de 2009:
Hoje de noite, em torno das 22h, o João Pedro me ligou aos prantos.
Assustei bastante.
Então ele me disse — “Papai, vem pra cá agora”.
Finalmente entendi o porquê “A saudade é o revés de um parto”.
[primeiro – 27/08]
Eu não ia registrar o que disse em resposta ao João ontem à noite, mas depois do telefonema que acabei de receber da Mi preciso falar.
Quando já estava me preparando pra dormir, fui pego de surpresa pelo choro e pelo pedido emocionado do João. Com o coração retorcido, tive de dizer a ele que eu não poderia aparecer ali, ao lado dele, naquele momento, pois eu não tinha poderes para realizar esta mágica. Porém, eu conseguiria fazer uma outra mágica bem forte pra ele.
Aí ele parou de soluçar para me ouvir. Disse que se ele colocasse o meu pijama e deitasse no meu lugar na cama (da mamãe), eu faria minha alma voar pela noite e pousar sobre ele para cobri-lo igual a uma capa invisível, enquanto eu não chegasse. Ele ficaria quentinho e bem protegido até que eu pudesse embarcar num ônibus e “picar a mula” para Catanduva
De madrugada (a Emiliane não o horário), João Pedro acordou a mãe para lhe contar que “a mágica do papai deu mesmo certo, [pois] olha mamãe eu estava descoberto, mas meus pés continuaram quentinhos”.
[segundo – 28/08]
Chorei que nem gente grande. Muito mais por saber que no domingo à noite me separaria de minha família novamente.
Então, para tentar suavizar a dor de mais uma despedida, resolvi dar seqüência à estória da capa mágica invisível. Costurei algumas referências pessoais com estórias que o João já conhecia e acho que consegui fazer uma bela capa para presenteá-lo.
Primeiro fui me inspirar na estória da capa da invisibilidade (invisibility cloak) de Harry Potter. Quem leu o livro a Pedra Filosofal vai se lembrar que Harry recebe a capa como um legado de seu pai James. Ela é oferecida ao Harry como uma forma de proteção na ausência dos pais (que estão mortos há anos), embora ele a utilize para correr mais riscos. A capa do Harry, no entanto, não pode protegê-lo de todos os feitiços e de qualquer outra forma de agressão física (no último livro da série a gente fica sabendo que a capa é uma das Relíquias da Morte).
A capa que eu fiz para o João Pedro (e também para presentear o Antônio, quando fizer 4 anos) é bem mais poderosa que a do Harry, porque para criá-la tive uma ajuda divina. Na verdade, duas ajudas: de Nossa Senhora do Calvário e de São Jorge de Ogum. É que ainda criança, menininho, minha mãe me garantiu que a Virgem Santa do Calvário — protetora do Colégio em que estudei a vida inteira — me colocaria debaixo de seu manto protetor e impenetrável sempre que eu estivesse ou me sentisse em perigo. E não é que funcionava? Pois quando sentia medo no escuro do quarto era só cobrir a cabeça com o cobertor imaginando que um pedaço do manto me guardava. Usei esse “meu pedaço” para fazer a capa do João.
Por fim, bordei com uma linha cor de prata aquela conhecida oração de São Jorge de Ogum (tão divinamente interpretada pelos Racionais Mc’s) no centro da capa e, assim, transformei o manto numa armadura extremamente leve, maleável e indestrutível.
Antes de ir embora para Brasília, como registrado acima, coloquei cerimoniosamente a capa sob os ombros do João e amarrei, como se praticasse um ritual. Ele me perguntou se podia nadar com a capa. Eu respondi que ele não precisa tirá-la para nada, inclusive nadar. Aí ele me perguntou se podia mostrá-la para o seu melhor amiguinho na época e eu lhe respondi que, como a capa era invisível, o seu amiguinho não poderia vê-la, mas apenas acreditar nela.
Pude voltar para Brasília um pouco menos carregado. E assim, um pouco mais leve, fiquei até o almoço do dia 31 de agosto. Como de costume, naquela segunda-feira fui comer com um grande amigo que me ajudava a fazer a transição dolorosa entre as cidades. Contei com empolgação a hestória da capa mágica invisível e falei com entusiasmo da fé do João Pedro.
Mas ao invés de se congratular comigo pela criação (como esperava), meu amigo franziu o cenho para me repreender:
“E se o amigo resolve atirar uma pedra nas costas dele só para testar a capa?”
“E se o João resolver parar um caminhão com o poder da capa?”
“E se ele tentar voar com a capa?”
“E se...”
“Pode parar”, interrompi e reagi de imediato: disse um palavrão e pedi que ele batesse na boca. Mas, no fundo, fiquei preocupado. Mudamos de assunto porque ele sacou meu drama.
Voltei para o trabalho ensimesmado, considerando os riscos que o João poderia correr só por causa das minhas invenções. Passei o dia meio desligado pensando numa maneira de consertar o que havia feito.
De noitinha, antes de telefonar para a Mi, conversei com um outro grande amigo sobre minhas preocupações, já me sentindo culpado pelo que eu imaginava que pudesse acontecer (cabeça de pai...). E não é que o Damião conseguiu me tranqüilizar? Daquele seu jeitão incrédulo desenvolveu um raciocínio tão cheio de referências significativas para mim (e para ele), citando Kolberg e dando exemplos pessoais, que acabou me convencendo que o João Pedro possuía maturidade suficiente para não se meter em enrascada por causa da capa. Não sem antes, contudo, me perguntar se eu conhecia um filme chamado Crash. “Não”, respondi. Ele ficou visivelmente intrigado porque, nesse filme tinha uma estória exatamente igual a que eu contei, inclusive (ele se lembrava) com o ritual solene da entrega da capa. Daí ele me contou o surpreendente fim da estória e eu fiquei novamente em dúvida sobre o que fazer com a capa.
Resolvi ligar para a Mi e tudo se resolveu; aliás, como sempre. Foi o João Pedro que atendeu o telefone para me perguntar se ele poderia guardar a capa. “Por que?”, perguntei. Ele respondeu: “— Porque eu não quero que estrague”. Parece incrível, mas era a deixa que eu precisava para tentar melhorar as coisas.
Falei, enfim, que ele podia guardá-la quando quisesse [a mamãe sabia desamarrar], mas que a capa não estragaria com o uso. A capa mágica invisível só estragaria, disse, se você usá-la sem necessidade, sem que você esteja realmente em perigo. Pensei em dar exemplos, mas no mesmo instante descartei para não dar idéia errada. Concluí reforçando que a capa o protegeria de todos os males, desde que ele continuasse sendo um moleque bom e obediente.
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Sosseguei tanto que fui me lembrar de assistir o filme Crash quase um ano depois (peguei em junho deste ano na locadora da “Tia Tati”, que já foi Megamil e agora é 100%). Fiquei ao mesmo tempo estarrecido e feliz com coincidência das estórias e a semelhança das capas.
Selecionei abaixo os dois trechinhos do filme em que a capa é a protagonista principal para quem quiser conferir. Como não tem legenda, segue uma sinopse das cenas:
Em sua casa Daniel conversa com sua filha, Lara, que está escondida debaixo da cama por ter ouvido o barulho de um tiro (do bairro violento). Para confortar Lara, Daniel lhe dá uma “capa invisível e impenetrável”.
Um cliente insatisfeito (é mais do que isso) aborda Daniel quando ele está chegando em casa do trabalho. Lara vê o pai sendo ameaçado com uma arma apontada para o seu peito e corre para protegê-lo com a capa. Assim que ela se joga no colo de seu pai a arma é disparada e Daniel sofre por acreditar que ela foi atingida. Mas Lara está ilesa como se o tiro não tivesse penetrado (noutra cena do filme descobrimos que eram balas de festim). Daniel, chorando, sai carregando sua filha nos braços ao encontro de sua esposa.
http://www.youtube.com/watch?v=KDW1tnr4Auk
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Uma saída honrosa (e eficaz) para birras
Tentei encontrar no “Caderno dos Meninos”, onde desde a primeira gravidez lanço apontamentos imediatos sobre o que vivencio com meus filhos, um registro de uma birra que o João Pedro deu num supermercado de Brasília nos idos de 2006 quando ele tinha em torno de três anos, um pouco mais do que o Enzo, filho da Melina.
É que eu queria oferecer os detalhes de como tudo se passou. Ou melhor, de como conseguimos — eu e o João — evitar um desfecho trágico. Mas infelizmente não encontrei (deve ter escrito numa folha em separado).
De qualquer forma o contexto é muito parecido com o da Melina, a única diferença da padaria para o supermercado é a quantidade de prateleiras porque o apelo ao consumo (no conjunto) é o mesmo.
Lembro-me que a Mi já estava grávida do Antônio e eu estava sempre ocupado demais com as coisas do trabalho. Naquele dia cheguei em casa ainda mais tarde, encontrei o João Pedro a mil por hora e a Mi exausta. Ele disse que queria comer bombom e eu achei que era um ótimo pretexto para aliviar a cansaço da mãe e a culpa do pai. Peguei o carro e lá fomos nós.
Até que nos divertimos bastante com o carrinho e com os peixes mortos. Tomei uma cerveja, ele um achocolatado, pegamos os bombons (os dele e os da mãe) e nos dirigimos para o caixa.
Entramos nessas filas de caixa rápido formadas por corredores de biscoitos, balinhas e supérfluos em geral (que costumamos chamar de “porcarias”, embora gostemos de comer). A intenção é uma só: coagir o cidadão a comprar o que não é necessário, o que está fora da lista, porque se fosse importante ele teria comprado antes. E o filho do cidadão, que não tem idade para entender a maldade, quase enlouquece. O pai, é claro.
Deve ter durado uns cinco minutos nossa espera, tempo suficiente para eu falar “não” umas 30 vezes (um “não” a cada 10 segundos são 6 por minutos multiplicados pelos 5 que passamos na fila). Mas dei sorte, porque nesse dia a maioria dos enfileirados era de pais que pareciam compreender a minha situação e que me ofereciam apoio a cada negativa.
No entanto, depois de passar as mercadorias pelo caixa e entregar o cartão para pagamento me dei conta que o João Pedro, sentado dentro do carrinho, tentava abrir uma caixinha dessas balas ardidas (tipo Tic-Tac). Zup! Arranquei a caixinha das mãos dele e disse “não”.
Pela reação descontrolada do João tenho certeza que alguém na fila deve ter pensado que eu havia arrancado um braço dele ou furado os olhos do menino. Acho que só não saí correndo e deixei meu moleque gritando e esperneando porque a moça estava com meu cartão de crédito.
Pedi para ele parar. Mas que nada, nem me ouviu.
Agi rápido, sem pedir outra vez e fazer ameaças: segurei firme o João pelos braços e o tirei do carrinho de supetão. Ele se assustou, sentiu o tranco e diminuiu o tom e o volume da birra. Segurei-o firme num desses abraços de judoca. E com ele dominado (embora continuasse chorando e berrando) pude digitar a senha e concluir a compra.
Num clarão repentino, num laivo, percebi que só tinha duas alternativas: sair correndo e deixar o João aos cuidados do gerente do Supermercado (pois já estava com o cartão) ou oferecer a ele uma saída honrosa para a birra (sem humilhações para nenhum de nós)
Pensei, enfim, que as alternativas não eram excludentes, desde que eu tentasse a saída honrosa primeiro. Foi o que fiz e até hoje é o que faço, porque dá muito certo.
A saída honrosa é nada mais nada menos do que uma mudança abrupta do foco da birra. Isto é, ao invés do pai ficar dizendo “João Pedro, não adianta gritar que eu não vou levar” ou “Olha só o que você está fazendo” ou “Agora que eu não levo nem os bombons” ou “Vou estrangulá-lo quando a gente chegar em casa”, entre outras coisas que as mães costumam falar, ao invés de ficar valorizando o descontrole da criança é muito mais simples surpreendê-la com uma sugestão ou um comentário inusitado do tipo: “João vamos pegar essas caixas de papelão do supermercado para fazer uma fogueira lá em casa?”
No mesmo instante ele parou de chorar e prestou atenção em mim. Aí pedi a ele que pegasse também mais umas sacolinhas de plásticos que pegam fogo fácil. E emendei uma hestória em que meu primo Fernando tinha pisado descalço num plástico derretido e teve que ir para hospital... Pronto, tudo sob controle novamente e pudemos voltar felizes da vida pra casa.
No caminho nem toquei no assunto da birra. Só quando fui tirá-lo da cadeirinha do carro, depois de estacionar em casa, é que falei olhando nos olhos dele: “Filho, acho que você se esqueceu que na nossa casa quem faz birra nunca consegue o quer. Mas agora você já se lembrou, né?”
Ele me fez um jóia com o dedo errado e fomos comer os bombons junto com a Mi.
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