terça-feira, 26 de abril de 2011

Criando moleques

Criar moleques é bem diferentes de criar meninos.
Moleque não se cria confinado em apartamento ou mesmo dentro de casa, pois, moleque é que nem bicho solto, precisa de espaço.
Moleque se cria descalço para que possa pisar com firmeza e chutar com força bola, pedra e bunda de outros moleques.
Moleque, eventualmente, quebra o braço, corta a boca, rasga a cabeça, mas sempre tem os dedos e os joelhos ralados.
Moleque sabe subir em jaboticabeira, sabe nadar como peixe, sabe andar de bicicleta sem rodinha e sabe se defender.
Moleque é como o Jesus Cristo daquele poema extasiante de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa), O Guardador de Rebanhos:
[...] 
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas pelas estradas
Que vão em ranchos pela estradas
com as bilhas às cabeças.
E levanta-lhes as saias.

Tudo isso tentei dizer sobre meus filhos à Coordenadora Pedagógica de uma escola em Brasília. Ela me pediu que falasse um pouco do Antônio e do João Pedro. Podia ter contado muitas coisas especiais a respeito desses dois moleques absolutamente normais. No entanto, preferi dizer apenas que haviámos (pai e mãe) decidido criá-los como moleques, isto é, como crianças de verdade vivendo uma infância verdadeira.

Pela expressões de seu rosto -- em reação a cada exemplo que eu dava -- parece-me que ela entendeu o que "criar moleques" significa para nós. Talvez ela só não tenha entendido a parte de subir em jaboticabeira, provavelmente porque nunca tenha subido. Talvez ela os tenha imaginado com ramelas nos olhos, nariz escorrendo, unhas pretas, solas encardidas e meio fedidinhos. Talvez não sejam assim, sujinhos como moleques, por causa dos cuidados e dos exemplos da mãe: nunca reclamaram para escovar os dentes e muito menos para tomar banho; pelo contrário, a gente tem que ficar de olho para que eles não usem todos os cosméticos da prateleira.

Bom, no fundo, acho mesmo que a razão de ter retratado os nossos filhos como molequinhos de primeira é uma só: queria ostentar o meu orgulho em ver tanto o Antônio quanto o João Pedro montarem em suas respectivas bicicletas sem rodinhas e sairam pedalando, firmes e fortes.



PS: Meu primo-irmão, Fernando, me disse que o equilíbrio de ambos é culpa do patinete. Desconfio que ele tem toda razão. Na dúvida, fica a dica: patinete na criançada!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O filho do Antônio

Domingo passado, Antônio e eu assistíamos juntos um programa que não tinha nada a ver com pai e filho, muito menos com pais e filhos que só podem ser ver nos finais de semana.
E, mesmo assim, do nada, sem que houvesse qualquer justificativa aparente, ele se virou para mim e me disse olhando nos olhos: "Pai, eu fico triste quando você vai embora".
Senti que a conversa era séria e que não poderia tergiversar. Por isso, respondi no mesmo tom, falei para o coração do Antônio que também ficava triste por ter que passar a semana toda longe dele, de seu irmão e de sua mãe. Disse ainda que quase morria de saudades.

Ele então me encarou por alguns segundos, suspirou fundo e desabafou: "Quando eu for adulto e trabalhar, não vou ficar longe do meu filho. Nem um dia!"

Abracei meu menininho com uma vontade tremenda de ser eu o filho do meu filho.



PS: Tirei as rodinhas da bicicleta do Antônio para que ele começasse a tentar e, de repende, já na primeira tentativa, não é que esse molequinho de 4 anos sai pedalando feito menino de 7. Consequencia: o João está se sentindo pressionado e, por isso, está um pouco receoso de tentar.

sábado, 2 de abril de 2011

Entrando pra turma da Mônica, do Chico e, quem sabe, do Lula

O João Pedro começou a "ler" os gibis da Turma da Mônica. Digo "ler", porque ele ainda não foi alfabetizado. Acho que ele acompanha a sequencia dos quadrinhos, interpreta as ações e se delicia com as estorinhas. "Lê" com uma voracidade supreendente.
A televisão agora é a sua terceira opção. Quando não quer brincar, ele prefere seus gibis.
É cada vez mais comum vê-lo acordar e se dirigir para o sofá da saleta com uma pilha de gibis nos braços.

Agora há pouco ele fez questão de organizar quase todos os seus gibis sobre a mesa da sala para exibí-los, como um tesouro, ao seu amiguinho. Aí me pediu que tirasse estas fotos e as colocasse na Internet, isto é, neste blog.


Comigo aconteceu do mesmo jeito: entrei para a turma da Mônica antes de apreender a ler. E lembro-me que adorava ir na casa do Binho, filho da Tia Cleo e do Tio João, para poder "ler" o montão de gibis que tinha. Ficava absorto por várias horas.
Com os anos fui criando o meu próprio acervo e lá pelos quinze anos já possuía uma coleção de fazer inveja. Até no Guarujá, onde passávamos as férias de verão, havia descoberto uma banca que vendia gibis usados, sem saber adquiri alguns "clássicos" da turminha, como a estorinha em que o Chico conversa longamente com um pingo de chuva.

E foi o Chico Bento quem me lançou na política. Na verdade, foi pelo Chico Bento que me lancei na política. A campanha pela eleição do Lula em 1989 me arrebataria definitivamente, mas debutei mesmo uns anos antes. Não me lembro ao certo (e não consegui identificar precisamente) quando teve início no Brasil um debate sobre os malefício que a fala errada do Chico causava às crianças em processo incial de alfabetização. Era o início dos anos 80 e, eu que já era um leitor contumaz da Turma, resolvi escrever uma cartinha em defesa do caipirês do Chico Bento. Foi minha primeira manifestação politica, justamente contra a censura. Felizmente, ganhamos a parada e, por isso, hoje o João e o Chico (e logo mais o Antônio) são grandes amigos.

domingo, 27 de março de 2011

A terceirização do amor (parte 2, final)

Resumindo o que foi dito antes: me parece bom para a criança que seus pais compartilhem sua educação com outros adultos responsáveis e capazes de oferecer boas referências e ótimos exemplos. Melhor ainda se esses “outros adultos” forem capazes de amar essa criança. Mas quando os pais admitem sua inaptidão para a maternidade e para a paternidade assumindo que não querem perder tempo com “pessoas em desenvolvimento” (que precisam aprender a comer, a se limpar, a ler, etc.) a melhor escolha é terceirizar a educação dos filhos, entregá-los a terceiros relativamente competentes para tanto.

Juro que não acho o cúmulo da irresponsabilidade esses “pais” que não conseguem se interessar pela infância de seus filhos. Acho que não preciso relembrar que faz menos de cem anos que as crianças viraram gente, antes disso eram consideradas na melhor das hipóteses um “projeto de gente” que podia ou não vingar. E para aumentar as chances desses “projetos” resultarem em adultos educados é que, justamente, foram criados, por exemplo, os colégios internos, para onde era enviada a filharada de modo que seus pais pudessem afastar as preocupações cotidianas que uma criança por perto inevitavelmente carreia. Ainda há colégios internos na Suíça e mesmo no Brasil, porém, já não gozam da mesma aceitação entre os ricos porque acabam evidenciando que os pais querem se ver livres e longes de seus filhos.

Uma pena porque, insisto, a melhor coisas que esses “pais” desinteressados podem fazer para seus filhos é oferecer a eles pessoas que se interessem verdadeiramente por eles. Pessoas que gozem da admiração e do reconhecimento desses “pais”, como avós, preceptores, tias, entre outros. Talvez um dia essa criança abandonada seja capaz de compreender que seus “pais” incompetentes ao menos tentaram honestamente lhe fazer um bem ao delegar sua educação a terceiros confiáveis e dignos da missão de ser pai e mãe (ainda que na terapia ela diga que teria preferido, se pudesse escolher, viver a indiferença de seus pais; certamente, com expectativa inocente de que seu amor e sua presença pudessem sensibilizá-los).

Muito pior fazem aqueles “pais” (também entre aspas) que não tendo a coragem de admitir sua incapacidade de amar seus próprios filhos resolvem fingir, por status ou porque está na moda, que dão conta do recado. E às vezes fingem tão completamente que acabam acreditando na ilusão que administram com ares de grande empresário. Fazem mal para a criança porque enquanto tentam dissimular a terceirização de seus filhos, ou melhor, o desinteresse pela infância, reproduzem toda sorte de preconceitos que desqualificam a atuação desses terceirizados.

Olha só se tem cabimento a conversa das madames ali no shopping de Rio Preto: “Pelo menos duas vezes por dia eu fiscalizo a troca de fraldas do meu bebê; e para verificar se a babá da noite (tenho três, uma a cada oito horas) faz tudo direitinho eu instalei uma câmera com infra-vermelho em doze pontos do quartinho”.

E aí esses “pais” que não compartilham a educação de seus filhos porque a empregada é “preta”, é “pobre” e “é burra” acabam dando um nó na cabeça das crianças: pois como é que minha mãe e meu pai podem me deixar com uma pessoa em quem não confiam e tampouco atribuem qualquer valor? Este é o paradoxo de que falava no final da parte 1, postada dias atrás.

É claro que uma criança de sete anos não vai formular a questão tal como escrevi acima, mas não há dúvida de que ela vai sentir profundamente a contradição: “Por que meus pais tratam mal e vivem desconfiando da empregada que eles mesmos arrumaram para cuidar de mim?”.

É assim. Não tem jeito. É caminho sem volta. Se nos tornamos pais e mães — por desejo, por sorte ou por azar — só há duas coisas a fazer: tomar o rebento nos braços e fazer de tudo para que ele seja amado e feliz (inclusive, beber menos, trocar fralda, contar estórias, ler mais, reaprender a brincar, enfim, “perder tempo e dinheiro” com seus filhos) ou então passar a bola e deixar que outros, a quem atribuímos as qualidades que não dispomos, o façam. O que não vale é posar dissimuladamente como mãe ou como pai apenas porque posso pagar um batalhão de terceirizados comandados pelo poder de meus preconceitos.



Ponto final. Não vou nem falar mais da Fräulein.

sábado, 26 de março de 2011

Salve São José, padroeiro da paternidade (e deste blog)


Está fazendo uma semana que São José (19 de março) fez “aniversário” e eu ainda não consegui prestar, isto é, postar minha homenagem ao santo de minha devoção.
E, a partir de hoje, será também o santo padroeiro deste Filhosofias (seguido por Xangô e por São Jorge de Ogum).

Não sei ao certo se poderia dizer que tenho fé em São José. Em meu sincretismo ateu acho que já não existe mais essa palavra, pelo menos não com um sentido divino: porque só consigo ter fé naquilo que nós, os seres humanos, somos capazes de produzir de bom; como por exemplo, a idéia de que existe um Deus que nos livra dos males e faz da morte apenas uma indispensável condição para a vida eterna.

Mas sem dúvida alguma sou fã desse cara. Considerando tudo o que dele dizem os evangelhos (incluindo os apócrifos), José foi um baita de um Pai pra Jesus. Fico inquieto só de pensar no que ele teve de fazer na noite do nascimento de Jesus numa gruta no meio da nada para poder dar comida à sua mulher e ao recém-nascido e ainda por cima manter os animais com seus piolhos e carrapatos relativamente afastados. Além do mais, embora ninguém fale sobre o parto (nem o Leonardo Boff no livro que me serve de referência São José, a personificação do Pai), tenho certeza que foi São José quem amparou Maria e quem cortou o cordão. Se você é um carpinteiro ou um advogado e teve a honra de fazer o parto de seu próprio filho sabe o quanto é difícil lidar com todo aquele sangue, com o cheiro de entranhas, com a placenta... enfim, salve São José.

Esta imagem, que estampa a contracapa do mencionado livro de Leonardo Boff e que é uma pintura da Igreja de Saint François du Lac no Quebec, diz tudo sobre São José e sua relação com o menino-deus. Porque nela Jesus dorme serenamente enquanto é carregado por seu pai numa demonstração evidente de que tem segurança e amor.


“Segurança e amor” trata-se duma síntese bastante apertada, mas muito adequada ao que nós, os pais, deveríamos representar para os nossos filhos.

Acho que é por isso que trago sempre comigo uma pequena imagem em madeira de São José. Levo para todo lugar que eu vou, não como um amuleto mágico capaz de evitar que o avião caia ou que receba elogios ao fim de cada trabalho (tem muito católico que adora transformar o seus santinhos em verdadeiros muiraquitãs, como os índios do baixo-amazonas). São José vai comigo para me lembrar de duas coisas muito importantes: a primeira é que eu fui amado por meus pais (que me deram a estatueta) tanto quanto José amou a Jesus e a segunda é que devo amar a meus filhos tal como fui amado e como José ensinou.

E para finalizar esta minha louvação, a música postada abaixo se chama José. Já foi cantada pela Rita Lee, mas para mim encontrou a sua mais perfeita expressão na interpretação do Grupo Galpão, quando da encenação da peça de teatro “A Rua da Amargura”. E, é claro, foi essa música que tocou quando eu entrei de braço dado com minha mãe para me casar com minha Mi. E como não poderia deixar de ser o Antônio e o João Pedro gostam muito dela.

segunda-feira, 14 de março de 2011

A terceirização do amor (parte 1)

Decidi abordar a denominada “terceirização dos filhos” ― expressão usualmente utilizada para designar a prática de deixar a educação de nossas crias sob a responsabilidade de terceiros ― dias antes de publicar aquela postagem sobre “A babá dos meninos”. Pensei em escrever a respeito, logo depois de “brigar” com a Emiliane por causa de umas colheradas de chocolate em pasta que ela serviu ao Antônio de café da manhã (embora ela diga que comer Nutella de colher não é o mesmo que comer chocolate). Fiquei pê da vida por ela ter dado o doce apenas porque ele pediu. Aí falei: “Poxa, as vezes você se comporta como se fosse Tia dos meninos, e não mãe. Assim fica fácil, dando tudo o que eles pedem. Mas isso não é educar, não é o nosso papel. E se não somos capazes de ajudá-los a crescer, o melhor a fazer é permitir que outras pessoas o façam. Enfim, melhor deixar que a Tata dê café para os meninos”. Falei, na hora, com a intenção de ofender, por isso me desculpei mais tarde e namoramos às pazes.

Contudo, acho que queria mesmo era tratar dos nossos limites ― como a falta de tempo, por exemplo ― como pais e como pessoas. Pois, no fundo, por mais que nos esforcemos, certamente não teremos competência para oferecer aos nossos filhos todas as referências e todas as orientações de que necessitam para se desenvolverem adequadamente. E mesmo que tenhamos (ou que acreditemos ter) creio que é recomendável partilhar a educação dos nossos filhos com outros adultos responsáveis, da babá aos avós, passando necessariamente pelos professores.

Há bastante tempo venho refletindo sobre isso. E espero que consiga enfrentar o tema sem ironias (é um vício) e sem rodeios. Mas vou fazer duas digressões (e, provavelmente, uma ironia), a la Almeida Garret.

É que, antes, preciso contar duas coisas: primeiro sobre as amas-de-leite dos séculos passados e depois sobre a Fräulein, a “babá” prostituta do livro Amar verbo intransitivo de Mário de Andrade.

Não sei se todo mundo sabe que no século XIX prevalecia o costume entre “os ricos e/ou bem-nascidos” de não amamentar os próprios filhos. Tanto no Brasil quanto na Europa.

As razões eram praticamente as mesmas: por um lado, entendia-se que a criança não era tão relevante assim para ocupar tanto tempo da mãe (em detrimento dos demais filhos e, principalmente, do pai); e, por outro, não se recomendava às mulheres de alta classe que constantemente desnudassem suas tetas para serem sugadas, mesmo em ambiente reservado (até porque a sucção faz cair o peito ainda que ninguém observe o ato).

Daí a presença cativa das amas-secas, responsáveis pela amamentação dos recém-nascidos, nas famílias relativamente abonadas. Essa época esta retratada nesta foto, tirada por Augusto Gomes Leal, da ama-de-leite Mônica (extraído do texto “As amas no estúdio do fotógrafo” disponível em http://www.studium.iar.unicamp.br/africanidades/koutsoukos/2.html) certamente adornada com as jóias da mãe do garoto.

Esse mesmo retrato consta da capa do livro História da vida privada no Brasil 2 - Império: a corte e a modernidade nacional de Luiz Felipe de Alencastro (org.). Por sua vez, esse livro explica que pelos idos de 1850 começa a surgir na Europa um movimento pela amamentação maternal: “há toda uma discussão sobre as vantagens do aleitamento materno, a fim de garantir melhores cuidados ao bebê e, supostamente, transmitir-lhe, pelo leite, as qualidades culturais de sua mãe.”

No Brasil, impulsionado pelo preconceito racial, o movimento pelo aleitamento ganha ares de campanha a ponto de um jornal paulistano “esclarecer”, em 1853, (estou citando o livro História da vida...) o seguinte: “O infante alimentado com o leite mercenário de uma africana, vai, no desenvolvimento de sua primeira vida, aprendendo e imitando seus costumes e hábitos, e ei-lo já quase na puberdade qual outros habitantes da África central, sua linguagem toda viciada, e uma terminologia a mais esquisita, servindo de linguagem”. Os exemplos são: caçula, cabaço, cafuné, pererê, fuzuê, etc.

E assim, acreditem ou não, foi a discriminação racial que motivou o aleitamento materno entre as mulheres brancas e, via de regra, ricas. Apesar da leve deformação no seio, a mãe podia transmitir a seu filho toda sorte de preconceitos com seu leite. Hoje em dia, as mulheres modernas contam com estímulos muito mais interessantes, como a prótese de silicone.

No entanto, embora as amas-de-leite tenham sido aniquiladas pelo preconceito racial, vigora e prevalece no Brasil uma discriminação mais complexa dirigida às empregadas domésticas e às babás, para as quais atribuímos paradoxalmente a proteção e a educação de nossos filhos.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Classificação indica-ativa - "Garoto Cósmico de Alê Ribeiro"

Taí uma animação brasileira de primeira. É o João Pedro quem atesta.

Nós, os adultos, gostamos um pouco mais porque tem Raul Cortez, Arnaldo Antunes, Vanessa da Mata, Belchior, Wellington Nogueira e, como se diz no circo, grande elenco.
Pena que ainda não é fácil encontrá-lo nas locadoras. Mas vale a pena procurá-lo e, quando não o encontrar, peça ao dono do estabelecimento que compre o filme para a felicidade geral da criançada.

Em resumo, a estória é assim: Cósmico, Luna e Maninho são crianças de um mundo futurista, onde as vidas são totalmente programadas. Certa noite, buscando mais pontos para obterem um bônus na escola, os três perdem-se no espaço e descobrem um universo infinito, esquecido num pequeno circo. Depois de muita brincadeira e tantas novas experiências, o mundo da programação envia um representante especial para resgatá-los. É hora de escolherem seus próprios caminhos (http://www.filmedepapel.com.br/pagina.php?id=77).




Já assisti uma dezena de vezes e continuo intrigado com a seguinte questão: Aonde estão os pais dessas crianças?

Que mundo é este em que as crianças são criadas por máquinas e de acordo com uma programação impecável? Será que este é o futuro da terceirização dos nossos filhos?

Tchan, tchan, tachn, tchan... (a seguir cenas do próximo capítulo)

quinta-feira, 10 de março de 2011

A babá dos meninos

É muito provável que, em breve, nos mudemos para Brasília. De volta à cidade em que os meninos nasceram. E crescerão, se tudo der certo, pelos próximos quatro anos.

Aos poucos, eu e a Mi, vamos tentando convencê-los (e nos convencer) de que a vida lá em Brasília pode ser tão feliz quanto tem sido para todos nós aqui em Catanduva. Apesar da distância dos avós, dos tios, das pessoas bem-próximas, dos amiguinhos, dos bichos da chácara, enfim, de quase todos os que nos amam e amamos enormemente [diante dessa relação de afetos e de apreços não há convencimento que prevaleça].

Ainda bem que estamos tendo um tempo para que as primeiras emoções (de perda, sobretudo) se assentem e os sentimentos duradouros possam se estabelecer.

Para o Antônio e seus 4 anos tudo já parece estar resolvido. Foi só lhe dizer claramente que dessa vez todos voltaríamos juntos, isto é, que o papai não se mudaria sozinho. Não que ele não vá sentir falta dos avós e das pessoas que o amam, mas para ele o mundo ainda se completa apenas com o papai Du, mamãe Mi e o Dedé.

Já o João é outra história. Vejam só. Dia desses, a babá dos meninos nos contou que ele pediu a ela que o adotasse para que ele continuasse morando em Catanduva. Ele foi rápido demais, pois a Tata, que é como os meninos apelidaram a Alaídes, acabara de se casar e o João, certamente considerando esse fato, logo concluiu que ela e o marido iam “precisar” de um filho. “Eureka!”, deve ter pensado (com outras palavras).

Por incrível que pareça eu fiquei super feliz. Primeiro, é óbvio, por saber que o João já é capaz de elaborar um raciocínio tão complexo. E depois fiquei feliz pela Alaídes, pelo reconhecimento que ela obteve na avaliação dos meninos, que é o mais importante. Sim, foi também uma manifestação de apego aos nossos familiares e de satisfação em relação à vida que levamos por aqui, porém o pedido do João Pedro foi essencialmente uma declaração de amor à sua babá.

E se o Antônio tivesse os 7 anos do João certamente diria o mesmo. Porque a Tatá realmente merece. A Alaídes fez por merecer o amor e o carinho dos meninos.

Sua responsabilidade é admirável. Sua disposição em aprender e fazer sempre melhor é surpreendente. São vários os exemplos que me parecem digno de nota. Registro apenas o mais recente: Tive de viajar com a Emiliane às pressas para Brasília de um dia para outro. Por alguma razão, que não me lembro, não deu para deixar os meninos com os avós ou com um dos os tios. Pedimos então à Tata que chegasse em casa até às 6 horas da manhã do dia seguinte para que não perdêssemos o vôo que partia às 7:15h de Rio Preto. Mesmo confiando em sua responsabilidade, resolvi deixar minha mãe de sobreaviso para qualquer eventualidade. Contudo, às 5:45h a Tata já estava nos esperando no sofá.

E pensar que ela não tem nem 20 anos.




Pois é por causa dessa “menina” que hoje chego a reconsiderar minha oposição veemente à terceirização dos filhos. Há casos em que uma babá excelente pode (e deve) realmente substituir, total ou parcialmente, pais e mães que têm muito dinheiro e nenhuma educação.

Aliás, por oportuno, vou tocar nesse assunto na próxima postagem.

quarta-feira, 9 de março de 2011

O Antônio e o antônimo da felicidade

Ontem apareceu um arco-íris no céu diante de nossa sacada. Chamei os meninos pra ver.
E ali com eles, olhando pro horizonte, disse que minha felicidade naquele momento ia do meu coração até ao pote de ouro (que eles sabem que está no fim do arco íris). Uma felicidade imensa.

Então, o Antônio me olhou bem e perguntou: "Você não está mais triste comigo?"

"Não, filho. Eu estou feliz com você e com o João, porque estamos nós três aqui". E emendei: "Mas, por que estaria?".

Ele devolveu: "Porque eu cuspi achocolatado na privada".

Demorei uns segundos para entender. Ou melhor, para me lembrar que há DOIS meses, num domingo, deixei o Antônio de castigo em casa porque ele tinha cuspido o achocolatodo por todo o vaso do banheiro por pura safadeza, apenas eu eo João fomos ao teatro no SESC.

"Caramba!", pensei com meus botões, "Certamente falei que fiquei triste com o que ele fez. E será que até hoje ele está pensando que estou triste?".

Pois é, taí um belo exemplo de que devemos tomar muito cuidado com o que dizemos para as crianças. Porque fica, as palavras marcam, as vezes para sempre.

Por outro lado, o exemplo serve para demonstrar que o Antônio já sabe qual é o antônimo da felicidade. Consolo de pai é pinico.

terça-feira, 8 de março de 2011

Manhã de Carnaval

Nesta terça, antes de ir a Bauru para o enterro de meu tio, brinquei com os meninos de playmobil.
Tentando explicar os motivos da viagem inesperada disse ao João e ao Antônio que o irmão de meu pai era avô de um menino chamado Rafael que tinha sete anos e que iria adorar brincar com eles. Principalmente de playmobil, porque o pai dele -- que se chama João Vicente -- quando era criança e vinha passar as férias comigo em Catanduva -- que sou seu primo --  gostava muito de brincar de playmobil. E esse gosto (de brincar de playmobil) os pais sempre passam para os filhos.

Aí o João Pedro me pediu, daquele jeito especial dele, que tirasse uma foto da nossa brincadeira e colocasse no nosso site Filhosofias para que o Rafael pudesse ver como os playmobis resistiram corajosamente ao ataque dos animais-robôs.

Embora não tenha conseguido transmitir ao meu primo, que não via há mais de três anos, a "mensagem" do João Pedro, fica aqui o registro de seu desejo.






Geração esperança

Em 2003, no ano em que o João Pedro nasceu, muitos amigos nossos também tiveram filhos ou ficaram grávidos.

Já naquela época costumava associar esse "babyboom" em nossa turma como o renascimento da esperança que, para a maioria dos brasileiros, havia ocorrido com a eleição de Lula Presidente.

Para quem não tem muito interesse por política, mas nutre uma certa rejeição preconceituosa pelo Lula (e pelo PT), provavelmente não vai compreender e muito menos aceitar a relação que há anos estabeleci entre sua eleição, o despertar da esperança e a chegada do João e outros tantos novos companheiros.



E no entanto para o nosso círculo de amigos, para a nossa turma, foi mais ou menos assim que tudo aconteceu: primeiro fomos fecundados pela esperança de um país melhor e mais justo, principalmente para os mais pobres, e depois fomos namorar para produzir os moleques e as meninas. Dizia, como minha poesia panfletária, "lá fomos nós semear a esperança" (como esta dente-de-leão aí da foto que é o símbolo do blog). Por isso, acabei batizando as crianças que nasceram ou foram concebidas no período 2002-2003 de "Geração esperança". 

Pelo menos no meu caso -- que levei um susto danado com a gravidez -- o slogan da vitória "A esperança venceu o medo" faz todo sentido.

Mas só toquei nesse assunto de "esperança" para poder abordar um outro tema. O avesso desse. E, portanto, triste.

Acontece que bastou eu lembrar daqueles anos de euforia e alegria para que perdesse por completo a vontade de falar de outra coisa.

Pensando bem, se eu parar por aqui até dá tempo de pular carnaval com a Mi e os meninos... E cantar com toda força: "Tristeza, por favor vá embora. Minha alma que chora..."

quinta-feira, 3 de março de 2011

Entrevista - Animação: entre o interesse da infância e o da indústria

Quem se interessa por animação, midia de qualidade, comunicação adequada a crianças, etc., talvez se interesse pela entrevista que dei a Marcus Tavares, um jornalista especializado no assunto que tem empregado seu talento para que as crianças recebam atenção prioritária. Para conferir: Animação: entre o interesse da infância e o da indústria

quarta-feira, 2 de março de 2011

Até parece maldade de pai, mas não é

Posso garantir que não é maldade, porque o pai que praticou o "ato" sou eu.

Brincávamos (até agora há pouco) com um bando de Max Steel, que são os filhos do boneco Falcon dos anos 80. "Brincávamos" uma vírgula, na verdade só o João Pedro brincava e se divertia, pois todas as vezes que eu o Antônio colocávamos um boneco de pé lá vinha o João derrubá-lo sob o argumento de que "na guerra vale tudo".
Pedimos que ele parasse umas dez vezes. Sem sucesso. Aí quando o Antônio se levantou pra resolver no braço, reassumi meu posto de comandante supremo e ordenei: "Se você quiser continuar conosco aqui na sala não se atreva a derrubar nem mais um boneco, do contrário vou te colocar pra dormir já".
Ficou na dele uns dois minutos. E então começou a (a)tacar seu boneco preferido contra os objetos da sala.
Entrei em cena novamente como o-pai-do-pedaço e disse: "Pare de fazer barulho e se eu tiver de chamar sua atenção mais uma vez - seja qual for o motivo - você vai pra cama. Entendido?".

Assim pudemos montar uma bela estória com dois Maxs Steel salvando um outro Max Steel das garras de um urso gigantesco enquanto outros dois Max Steel tentavam domar a fera, com o auxílio de um lobo de estimação. Os bonecos ficaram bonitos todos de pé e empenhados no resgate. E o João só de butuca.

Depois de um tempinho o Antônio se desinteressou pelos Max e foi bruncar de playmobil. Levantei-me para tomar banho e o João me perguntou se podia acabar com a estória. Entenda-se jogar o seu Max Steel predileto sobre os demais. Pensei um pouco e disse: "Vou pensar, mas primeiro guarda os que estão jogados".

Mal liguei o chuveiro e veio ele me dizer que já tinha guardado e se [portanto] podia destruir a cena. Respondi que sim, porém só quando eu voltasse pra sala. Justamente porque eu sei que o João é impaciente (como quase toda criança de 7 anos) resolvi fazê-lo esperar um pouco, no fundo, fazê-lo sofrer um poquitinho.

Essa é a maldade. Ou melhor, isso é o que parece maldade. Mas não é. Pelo contrário, é uma estratégia pedagógica para evitar que ele sofra com a ansiedade (que é um dos males que mais aflige a humanidade hoje em dia). O princípio é o mesmo da vacinação ou da imunologia: você injeta na criança um anticorpo enfraquecido (um sofrimentozinho) para que ela desenvolva antígenos fortes e não sofra com a doença.

Além do mais, li naquele livro do Neil Postnam (O desaparecimento da infância, que vivo citando aqui no Filhosofias) que aprender a retardar o gozo é um exercício indispensável de maturação intelectual e emocional.

Por fim, depois de uns 25 minutos (uma eternidade para o João) apareci na sala para autorizar e contemplar a matança.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A superioridade moral das crianças

As crianças, tal como o bom-selvagem de Rousseau, nascem em condições de serem moralmente superiores a seus pais. Nós é que, em regra, impedimos que isso ocorra, oferecendo exemplos eloqüentes de nossas fraquezas como se fossem manifestações de força e superioridade. Felizmente, as vezes acontece de nossos filhos conseguirem superar os obstáculos que criamos (involuntariamente, tento me convencer) e se formarem pessoas muito melhores do que nós.


Parece que o João Pedro conseguirá. Ao menos é o que indica esta situação que vivemos há uns dias.

Minha mãe passou de casa para entregar aos meninos uma Nhá Benta para cada um.

Mas ao vê-los brincando com outro amiguinho resolveu entregar os dois chocolates a mim para que depois oferecesse apenas a seus netos. Conversávamos no escritório, eu ainda segura as caixinhas de Nhá Benta, quando o João entrou para me perguntar algo (que já não me lembro).

Na hora ele olhou para o doce e perguntou se era para ele. A vovó respondeu que havia trazido um para ele e o outro para o Antônio, porque não sabia que haveria outra criança. E eu ainda completei dizendo para ele deixar os chocolates para a sobremesa do jantar, porque só havia dois.

Como se compreendesse integralmente nossa sugestão (“não divida”), o João Pedro nos disse o seguinte, tomando as caixinhas de minha mão: “Vovó e Papai, pode deixar que eu pego uma faca sem ponta e divido o meu chocolate direitinho com o Caio. Obrigado, Vovó”. Deu um beijo em minha mãe e saiu feliz da vida.

Olhando para minha mãe meio sem graça com nossa própria inferioridade moral, só consegui dizer: "E não é que o moleque é mesmo bom de coração".

sábado, 29 de janeiro de 2011

A imposição das escolhas por ROSELY SAYÃO

Daqui em diante vou postar textos de outras pessoas que contenham considerações filhosóficas. Mas só de vez em quando...

______A imposição das escolhas______
VOCÊ TEM filhos com menos de seis anos, leitor? Que tal garantir a eles a oportunidade de viver como crianças pequenas que de fato são? Um bom começo é deixar de dar tanta importância à preparação delas para um futuro exitoso.


Pois é: hoje, as crianças perdem esse período precioso da vida, e tão breve, porque decidimos que, quanto mais cedo elas forem introduzidas ao manuseio das ferramentas do mundo adulto, maiores serão suas chances quando tornarem-se adultas.


Essa postura, cheia de boas intenções, é um componente importante no processo em curso que promove o desaparecimento da infância no mundo contemporâneo. E você sabe, leitor, o que significa ser criança sem ter a chance de viver a infância? Não. Ninguém sabe ao certo como é a vida das crianças neste mundo. Entretanto, temos algumas pistas a esse respeito. Ansiedade, insônia, depressão, inquietação constante, medo, hipertensão, obesidade, doenças do aparelho digestivo etc., males que antes eram exclusividade do mundo adulto, hoje são frequentes na infância, inclusive na primeira parte dela.


Pressa, pressão, compromissos, deveres. Nada disso combina com os primeiros anos de vida. O que combina? Tempo, material e oportunidade para brincar, por exemplo. Ou para nada fazer: só olhar, observar, participar da vida de um modo muito particular.


Crianças dessa idade podem aprender informática, línguas, esportes, letras e números? Podem. Precisam disso? Não precisam. Pelo menos não do modo como temos feito. Criança com até seis anos aprende brincando. Mas ela não deve brincar para aprender determinado conteúdo e sim aprender algo, por acaso, brincando apenas. Simples assim.


Outro caminho para deixar a criança viver a infância a que tem o direito é não passar a ela as responsabilidades que são nossas. Não se espante, leitor: fazemos isso diariamente. Escolher a roupa que vai vestir, o brinquedo que quer ganhar, o calçado que quer usar, o horário em que vai se recolher para descansar, qual escola vai frequentar, se vai atender a imposição familiar ou se vai desobedecer... Quantas escolhas permitimos que elas façam e que deveriam ser só nossas! Vamos convir: escolher algo é um processo complexo até para um adulto, não é verdade? Quem não pena para escolher se muda de emprego ou não, se casa ou permanece solteiro, se rompe um relacionamento amoroso desgastado ou deixa a coisa rolar, se usa esta ou aquela roupa em uma ocasião especial, entre outras situações? Pois essas escolhas, que são tão importantes na vida de um adulto, porque interferem no eixo vital deles, são similares às escolhas que obrigamos as crianças pequenas a fazer. Sim: obrigamos.


Elas querem, elas pedem por tudo isso e atendemos -é assim que preferimos pensar.


Elas até podem querer, mas nós é que devemos saber o que faz bem a elas ou o que fará com que padeçam. Por não suportarmos o sofrimento que a criança experimenta quando é desagradada, temos feito com que sofram muito mais. Se você conseguir poupar seus filhos menores de seis anos do processo de fazer escolhas complexas e permitir que eles passem esses primeiros anos de vida apenas brincando sem qualquer outro objetivo que não o de se divertir, dará a eles uma vida presente muito rica. E essa é a melhor maneira de preparar um futuro melhor.

ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (Publifolha)

Folha de S. Paulo, Ilustrada, 25/1/2011

Link: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq2501201113.htm

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Os braços quebrados do menino Jesus

Quem não se lembra deste soneto aí embaixo do Gregório de Matos*?

Tenho certeza que muita gente vai se lembrar do poema, porque aparece em toda antologia poética que se preze. Faz parte de apostilas e de livros didáticos utilizados para “ensinar” Literatura no Ensino Médio (antigo Colegial). Quando fiz Cursinho me recordo claramente de como era utilizado para ilustrar o emprego da metonímia, uma figura de linguagem que também caracteriza o barroco. Eis os quartetos e os tercetos:

ACHANDO-SE UM BRAÇO PERDIDO DO MENINO DEUS DE N. S. DAS MARAVILHAS, QUE DESTACARAM INFIÉIS NA SÉ DA BAHIA

SONETO

O todo sem a parte não é todo;
A parte sem o todo não é parte;
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga que é parte, sendo o todo.

Em todo Sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda parte,
Em qualquer parte sempre fica todo.

O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.

Não se sabendo parte desse todo,
Um braço que acharam, sendo parte,
Nos diz as partes todas deste todo.


Maravilhoso, não? Mas ainda mais bonito fez o Antônio.

Esse meu segundo filho, que não fica nem um pouco atrás do “Boca do Inferno”, tentou consertar os dois bracinhos da imagem do menino Jesus, que ele mesmo quebrou, com a seguinte prosa-poética. Vale a pena escutar.

Estávamos só nos dois em casa (acho que a Mi tinha saído pra comer lanche com o João).

De banho tomado, deixei o Antônio em seu quarto para que colocasse o pijama e fui para o banheiro esperá-lo para escovação.

Ele demorou um pouquinho mais do que deveria. Logo imaginei que estivesse envolvido com outra coisa (perigosa, em regra). Chamei: “Vem, filho, escovar os dentes para dar tempo do papai ler mais estórias”.

E lá veio ele segurando entre as mãozinhas uma imagem do menino Jesus, que fica no criado-mudo de seu quarto. “O que isso, filho?”, perguntei. “Papai, olha só o que aconteceu sem querer: quebrou os dois braços do Jesus. Você conserta, papai?”.

Não querendo encompridar a conversa, isto é, sem exigir dele maiores explicações como costumo fazer, disse que tentaria colar no dia seguinte. Podia ter encerrado o assunto, mas resolvi dizer que o menino Jesus ia ficar triste com os braços quebrados (nossa, que bobagem a minha!).

Ainda bem que, na lata, o Antônio respondeu: “Não vai não, papai. Olha só a ‘calinha’ dele de feliz. Nem doeu”.

Taí um exemplo de emenda que saiu melhor do que o soneto.








* Eis um trechinho do Esboço Biográfico escrito por José Miguel Wisnik:
 “... Mas a lira dos ‘Matos incultos da Bahia’ foi realmente enriquecida no terceiro nascimento, o de Gregório, a 20 de dezembro de 1633 (ou 36), que recebeu o sobrenome materno de Guerra.
Em Coimbra, Gregório formou-se em Direito; em Lisboa teria sido, durante muitos anos, juiz do Cível, de Crime e de Órfãos, segundo as diversas informações. Aí se enfronhou nas poéticas do tempo [...] O certo é que voltou ao Brasil em 1681 [...] Um caso para o advogado Gregório: um sujeito que comprou o cargo de Juiz na Vara de Igaraçu, processou um outro por não chamá-lo pelo título. Defendendo o réu, argumenta o poeta: ´Se tratam a Deus por tu, / e chamam a El-Rei por vós, / como chamaremos nós / ao Juiz de Igaraçu? / Tu, e vós, e vós, e tu’.
A virulência da sátira do ‘Boca do Inferno’, motivada seja pela crítica da corrupção, dos desmandos administrativos, dos arremedos da fidalguia local ou pelo puro e cortante prazer sádico, lhe valeu a deportação para Angola. [...]
Há quem insista em fixar alguns gestos como a imagem da sua exorbitância: uma cabeleira postiça, um colete de pelica, uma vontade de ficar nu, um escritório adornado com bananas.
Morreu piedosamente, segundo testemunhos, em 1696.”

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Feliz Ano Novo e, finalmente, adeus Ano Velho!

Desejo um Feliz Ano Novo aos pais, às mães e aos demais malucos que, em algum momento da vida, decidiram ter filhos (mesmo àqueles que só puderam decidir depois do susto de uma gravidez não-planejada e também àqueles que ainda nem ficaram grávidos, pois o que importa é a decisão).

E eu queria mandar um beijo para a Patrícia, minha irmã, e para o Onésio que tiveram o desplante de nascer no réveillon. E para homenagear todos os amigos que fazem aniversário em janeiro — o Fernando Carvalho, a Marina Oliveira, a Tia Marta e, ontem, o Leo Barbosa — eu postei a mais bela canção que existe sobre o tema: “Feliz aniversário” de Alvarenga e Ranchinho (pena que não são os dois que cantam).

Não, não é o Ano Novo chinês que estou comemorando. O Filhosofias ainda segue o calendário gregoriano, mas, como o tempo também é uma questão subjetiva, minha “passagem” foi um pouco mais longa. E por muito pouco este blog não consegue completar a travessia de 2010 para 2011. Isto é, quase o abandonei pelo caminho.

A primeira justificativa que formulei (comigo mesmo) para acabar com o blog foi meio dissimulada, como quando a gente na adolescência pedia um tempo pra namorada só pra não ter que dizer “acabou e pronto”. Pensei com meus botões: “Vamos todos tirar umas férias e quando a Angélica, o Marcelo, a Cecília e o Murilo voltarem, nós voltamos também”.

Já a segunda justificativa foi apenas uma variação daquela velha desculpa esfarrapada da falta de tempo: “O Filhosofias ficou pesado demais, não dá para carregá-lo nas costas pelas madrugadas adentro. Vou fazer exercícios físicos de manhãzinha que eu ganho mais, ou quem sabe, perco a barriga”.

A terceira, um pouco mais honesta, foi: “Estou ficando viciado nisso, se não escrevo todos os dias e não consulto as estatísticas da audiência (quem leu, quem comentou, de que país, a que horas, etc.) parece que fica faltando alguma coisa”.

A quarta justificativa foi mais ou menos o oposto da segunda, tal como o apresentador de TV que faz de tudo para conquistar mais público e depois reclama que não consegue tomar um pileque sossegado nas areias de Copacabana sem ser incomodado pelos fãs: “Acho que as postagens acabam expondo excessivamente a mim e a minha família, além do que criam expectativas reais, ainda que os relacionamentos sejam exclusivamente virtuais. O Pequeno Príncipe estava certo quando disse aquela pieguice de ‘tu te tornas eternamente responsável pelo que cativas’”.

Formulei a quinta justificativa depois de ter lido nas férias Ana Karênina do Tolstoi e Pai e filho do Tony Parsons, que, guardadas as devidas proporções de tempo e lugar, são livros que dispensam quilos e mais quilos de blogs: “Como é que eu posso ter o descaramento de tomar o tempo de mães e de pais com essas postagenzinhas pretensiosamente perscrutadoras sabendo que existe tanta literatura de primeira-linha por aí? O Filhosofias faria muito mais pelas crianças se se dedicasse tão somente a instigar os adultos a ler Machado, Saramago, Tolstoi, Guimarães Rosa...”

A sexta justificativa que arrumei para parar de filhosofar em público foi mais uma manifestação do cabra-macho que existe em mim (meio velho, mas existe): “Cansei de conversar sobre criança; parece até que sou mãe, que assisto novela, que sei bordar, que arroto discretamente e que torço pro São Paulo. Daqui a pouco vou começar a falar dos ‘homens’ para minhas amigas leitoras como se eu fosse aquele amigo gay que toda mulher pensa que precisa ter”.

Aí quando estava pensando numa sétima hipótese para não mais escrever, compreendi que o buraco era realmente mais embaixo e que eu seria capaz de encontrar mil e uma justificativas só para não ver a assombração que, de novo, me paralisava.

Trauma

Quem acompanha o Filhosofias sabe que as postagens intituladas “Intra-uterinas” dizem respeito ao diário que escrevi durante a gravidez do João Pedro. Mas provavelmente tenha passado despercebido — até para Angélica — que comecei aquele papo sobre o aborto dizendo ao João (um bebezinho tão indefeso) que conversaríamos sobre um outro assunto ainda mais difícil tanto para mim quanto para ele.

Acontece que naquela época — mais ou menos no início da gestação — eu não tinha idéia do amor gigantesco e avassalador que fundamentaria minha condição de “pai, de verdade” ao fim dos nove meses. Por isso eu disse ao João, talvez mais como mestrando e menos como pai, que necessariamente teríamos que prosear sobre um outro assunto.

Olha só, tão espinhoso me parecia a conversa que não fui capaz, lá nos idos de 2003, de dizer claramente do que se tratava. E quanto mais me aproximava do meu filho e de seu parto, mais me sentia incapaz de tocar no assunto.

E não toquei mais. Pois, parei de escrever o diário porque já não sabia como prosseguir com meu diálogo (é quase um oxímoro, né?) intra-uterino. E fui me dedicar aos trabalhos manuais da casa e do quarto do bebê.

Contudo, depois do Apgar 3 do João (contei na postagem O parto do João Pedro) e diante dos risco de seqüelas neurológicas, frequentemente me sentia de súbito acossado por pensamentos ruins, desses que nos pegam desprevenidos e nos fazem sofrer só de lembrar (que um dia pensamos). Mais que depressa agitava a mão sobre a cabeça como se pudesse abanar e dissipar as nuvens carregadas que o medo nos traz. Era, no fundo, aquele outro assunto que não ousava enunciar.

Ano após ano via o João Pedro crescer em coragem, em bondade e em inteligência, sem qualquer problema. E, assim, com o passar do tempo fui ficando tranqüilo e seguro de que o outro assunto havia perecido.

Até que, no finalzinho de dezembro de 2010, sete anos se passaram e quando eu me preparava para finalmente falar do que nunca falei e enfrentar o trauma, sucumbi novamente: não dei conta de escrever coisa nenhuma e achei que seria mais fácil encerrar o blog do que o assunto.

Bom, evidentemente, não foi dessa vez. O Filhosofias superou o meu trauma e continuará a seguir o seu curso, firme e forte, como Frei Caneca do Amor Divino um dia sonhou.

Saravá.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

De volta

Estamos de volta! Depois de um curto e caloroso verão, voltamos todos ― João Pedro, Antônio, Emiliane e eu ― para fechar este ano e abrir o próximo.


Nesses últimos dias aconteceram tantas coisas e foram tantos os ensejos filhosóficos que não sei nem por onde começar.

Não, talvez eu saiba...

Vou recomeçar mostrando o presente que ganhei no Natal.

Dia 24 de dezembro, lá pelas oito da noite, eu e os meninos estávamos deitados na cama para assistir minha namorada (que é como eles tratam a mamãe e esposa do papai) se aprontar para a ceia quando, de repente, o João Pedro me presenteia com este verso:

“Papai, o meu pé é que nem o da mamãe, mas eu sou igualzinho a você!”.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Crianças com deficiência, pais especiais

Anteontem soube pelo blog da Melina (O lado M de mamãe) que em 3 de dezembro se comemorou o dia internacional do deficiente físico.

Ontem, por coincidência, conversei ao telefone com Claudia Werneck que há anos escreve, reflete e trabalha muito pela inclusão de crianças com deficiência. Ela é Superintendente Geral da Escola de Gente, uma das mais corretas ONGs que já conheci (e posso dizer que conheço “profundamente” algumas centenas de organizações não governamentais, porque trabalhei durante anos avaliando a contabilidade e qualificando as ações de todas as OSCIP federais e de grande parte das entidades filantrópicas). A Escola de Gente – Comunicação em Inclusão foi fundada em abril de 2002 “por profissionais de comunicação e ativistas [...] a favor da inclusão de grupos em situação de vulnerabilidade na sociedade, especialmente crianças, adolescentes e jovens com deficiência”.
Curiosamente, não falamos sobre o tema. Tratamos de outros assuntos menos relevantes, mas não menos urgentes.

Hoje, a Mi me deu boas notícias da primeira cirurgia (outras oito estão previstas) a que teve de submeter o filho mais novo de um casal de amigos. Disse-me, também com os olhos, o quanto ela admira a força, a coragem, e a determinação dos pais de uma criança com algum tipo de deficiência.

Há quem se refira por pura delicadeza às crianças com deficiência como “crianças especiais”. Tudo bem, pois neste caso a intenção também vale e todo cuidado é pouco. Mas, no fundo, acho que são os pais dessas crianças que são mesmo especiais.

Evidentemente, nem todos os pais nascem assim. Muitos vão se tornar, em razão do amor e da atenção especial que seus filhos requerem. Não sem sofrer, não sem esmorecer, não sem duvidar e, sobretudo, não sem reconhecer seus próprios limites e suas inúmeras deficiências. O filho eterno, livro de Cristovão Tezza, e também o filme-documentário Do Luto à Luta, de Evaldo Mocarzel, tratam com franqueza das dificuldades que os pais devem enfrentar e superar até se tornarem — sem querer — pessoas especiais (para seus filhos e para todos nós).

Sei que nem todos os pais dão conta do recado. Alguns tentam fugir do “problema” e abandonam seus filhos. Outros, que não podem fugir, amargam uma vida de isolamento e renúncias forçosas para tentar esconder o “problema”. Por outro lado, mas nessa mesma linha, há pais que promovem a superexposição de seus filhos para que sejam considerados especiais, ou melhor, para que recebam (meio que por tabela) a atenção, a comiseração e a compaixão das pessoas próximas. Agem de modo que a deficiência do filho os projete socialmente como pessoas predestinadas (por Deus?) a serem especiais e, portanto, melhores do que realmente são. Só não causa abjeção porque, quase sempre, tal comportamento é decorrência de uma grave patologia. Tive o azar (ou a sorte, não sei) de conhecer um único caso.

Felizmente, tenho encontrado pelo caminho muitos pais verdadeiramente especiais, que fazem da paternidade e da maternidade de crianças com deficiência um patamar de amor e civilidade que todos deveríamos tentar alcançar. Basta levar a condição de pai/mãe a sério para descobrir e viver o festejado amor incondicional. Todavia, creio que o patamar erguido e sustentado por esses pais especiais está bem mais além do incondicional: suspeito que esteja naquele mais alto ponto do mais azul do céu que só pode ser visto com os olhos do coração.

Segue a Parte 2 do documentário do Luto à Luta disponível integralmente no youtube:

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

1ª Exposição de "Arte" dos Meninos

Estes são os 10 convites que João Pedro e Antônio prepararam para oferecer aos seus familiares e amigos. São poucos para distribuir, mas o suficiente para convidar a todos que queiram conhecer tanto o espaço de arteterapia Bem Me Quer quanto o "trabalho" deles (e de outros meninos e meninas).