A experiência de Fortaleza foi tão marcante para todos nós que modificou até mesmo minhas viagens a trabalho sem os filhos.
É que tudo o que registrei aqui (no post abaixo), principalmente minha crescente dificuldade (para não dizer tristeza) em deixá-los a cada nova viagem, acabo transmitindo, de alguma forma, aos meninos.
O João Pedro, que tem o coração maior do que o mundo, ao saber que eu iria viajar a trabalho nessa ultima segunda-feira, tomou a iniciativa de me fazer uma marmita (com castanhas, granola, frutas secas, entre outras guloseimas) e, ainda, preparou este playmobil para que eu levasse na viagem "uma lembrança do que a gente faz juntos".
(parece São Jorge, né?)
Não sei da onde ele tira essas coisas. Também não sei como ele é capaz de "compreender" situações complexas, que envolvem sentimentos tão difíceis de descrever, e além do mais agir de forma serena e conclusiva. Claro que não acredito que ele faça tudo de caso pensado para minimizar a dor da distância, igual àquelas mães que transformam legumes e verduras em desenhos divertidos no prato do filho apenas para dissimular o gosto desagradável.
Sei que o João é uma criança. E vamos fazer de tudo para que ele tenha uma longa e intensa infância. Mas confesso que fico feliz ao vê-lo caminhando assim com sua inusitada maturidade.
sexta-feira, 29 de março de 2013
Viajar a trabalho com os filhos
Muito recentemente pude viajar a trabalho e levar toda minha família.
Foi promessa de Ano Novo que, juntos, começamos cumprir.
É bom esclarecer que, de uns anos para cá, acabei criando uma resistência tremenda às viagens de trabalho. Principalmente, porque, mesmo viajando bem cedinho e voltando de noitinha (o famigerado "bate e volta"), perco momentos preciosos com os três. Sem contar que sobrecarrego a Mi por não poder acompanhar os meninos no cumprimento das rotinas mais pesarosas: acordar, tomar café, fazer tarefa e dormir no horário.
Por isso, essa primeira experiência de viagem-a-trabalho-com-família foi um marco em nossas vidas (acho até que exageramos um pouquinho na dose, porque, na ânsia de aproveitar tudo, voltamos a Brasilia apenas no domingo à noite, bem de noite).
Daqui em diante, sempre que eu tiver um compromisso sexta de tarde ou segunda de manhã -- a condição é poder passar o fim de semana -- vamos todos. Claro que também fixamos como condição ter milhas aéreas e um pouco de dinheiro.
Nessa viagem inaugural que fizemos a Fortaleza conseguimos conciliar trabalho e lazer, sobretudo, porque separamos rigorosamente os horários e os lugares: enquanto trabalhava num lado, a família se divertia noutro.
Contudo, decidimos que na próxima oportunidade vamos tentar misturar um pouco as coisas. Por sugestão do amigo Flavio Paiva, escritor cearense mais importante do que José de Alencar (ao menos para minha família), vamos tentar envolver os meninos com o trabalho. A exemplo do que Flávio faz com seus filhos, o João Pedro e o Antônio vão participar do trabalho, provavelmente, enquanto um deles me ajuda a passar os slides da apresentação, o outro faz fotos da audiência.
Depois dou notícias de como foi a performance dos dois. Mas, por favor, façam figas desde já.
Foi promessa de Ano Novo que, juntos, começamos cumprir.
É bom esclarecer que, de uns anos para cá, acabei criando uma resistência tremenda às viagens de trabalho. Principalmente, porque, mesmo viajando bem cedinho e voltando de noitinha (o famigerado "bate e volta"), perco momentos preciosos com os três. Sem contar que sobrecarrego a Mi por não poder acompanhar os meninos no cumprimento das rotinas mais pesarosas: acordar, tomar café, fazer tarefa e dormir no horário.
Por isso, essa primeira experiência de viagem-a-trabalho-com-família foi um marco em nossas vidas (acho até que exageramos um pouquinho na dose, porque, na ânsia de aproveitar tudo, voltamos a Brasilia apenas no domingo à noite, bem de noite).
Daqui em diante, sempre que eu tiver um compromisso sexta de tarde ou segunda de manhã -- a condição é poder passar o fim de semana -- vamos todos. Claro que também fixamos como condição ter milhas aéreas e um pouco de dinheiro.
Nessa viagem inaugural que fizemos a Fortaleza conseguimos conciliar trabalho e lazer, sobretudo, porque separamos rigorosamente os horários e os lugares: enquanto trabalhava num lado, a família se divertia noutro.
Contudo, decidimos que na próxima oportunidade vamos tentar misturar um pouco as coisas. Por sugestão do amigo Flavio Paiva, escritor cearense mais importante do que José de Alencar (ao menos para minha família), vamos tentar envolver os meninos com o trabalho. A exemplo do que Flávio faz com seus filhos, o João Pedro e o Antônio vão participar do trabalho, provavelmente, enquanto um deles me ajuda a passar os slides da apresentação, o outro faz fotos da audiência.
Depois dou notícias de como foi a performance dos dois. Mas, por favor, façam figas desde já.
terça-feira, 26 de março de 2013
Uma breve declaração de amor
Quem ainda não ouviu falar da Rua 25 de Março em Sao Paulo?
Tenho certeza que quase o Brasil inteiro.
Mas o que pouca gente sabe é por qual razao a rua se refere ao dia de hoje.
Ou melhor: ao dia 25 de março de 1824.
Bom, agora ficou fácil, não?
Brincadeirinha. Nem minha avó se lembraria do que se passou nessa data tão fundamental para a história do Brasil.
Tchan, tchan, tchan, tchan... Há exatos 189 anos, Sua Majestade D. Pedro I outorgava (isto e, impunha goela abaixo) a primeira Constituição do Brasil, depois de ter dissolvido a Assembléia Constituinte e mandado prender aqueles que se negavam a jurar o seu projeto de constituição (entre outros, prendeu Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, por quem tenho gigantesca admiração, diga-se de passagem).
Eis o motivo que justifica o nome da rua.
Em 25 de março de 1922 foi fundado o Partido Comunista do Brasil, o famoso PCB, atribuindo ao dia um significado tão ou mais importante -- ao menos para mim -- do que o feito autoritário do nosso imperador.
"E o que isso tudo tem a ver com filhosofias?", alguém aí do outro lado pode estar se perguntando.
Acho que nao preciso nem explicar. Basta dizer que no dia 25 de marco de 2000 eu e a Mi nos casamos.
E daí veio Belo Horizonte. E depois, Brasilia. E, finalmente, o Joao Pedro e o Antonio. E com eles veio tudo mais em nossas vidas (inclusive essa vontade meio atrevida de filhosofar).
Olhando para tras, para os ultimos treze anos, e, ao mesmo tempo, para a frente, para os próximos cinquenta (por que não?), posso claramente ver e sentir todo o amor que existe no mundo. Apenas porque, Miroca, estamos juntos.
Tenho certeza que quase o Brasil inteiro.
Mas o que pouca gente sabe é por qual razao a rua se refere ao dia de hoje.
Ou melhor: ao dia 25 de março de 1824.
Bom, agora ficou fácil, não?
Brincadeirinha. Nem minha avó se lembraria do que se passou nessa data tão fundamental para a história do Brasil.
Tchan, tchan, tchan, tchan... Há exatos 189 anos, Sua Majestade D. Pedro I outorgava (isto e, impunha goela abaixo) a primeira Constituição do Brasil, depois de ter dissolvido a Assembléia Constituinte e mandado prender aqueles que se negavam a jurar o seu projeto de constituição (entre outros, prendeu Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, por quem tenho gigantesca admiração, diga-se de passagem).
Eis o motivo que justifica o nome da rua.
Em 25 de março de 1922 foi fundado o Partido Comunista do Brasil, o famoso PCB, atribuindo ao dia um significado tão ou mais importante -- ao menos para mim -- do que o feito autoritário do nosso imperador.
"E o que isso tudo tem a ver com filhosofias?", alguém aí do outro lado pode estar se perguntando.
Acho que nao preciso nem explicar. Basta dizer que no dia 25 de marco de 2000 eu e a Mi nos casamos.
E daí veio Belo Horizonte. E depois, Brasilia. E, finalmente, o Joao Pedro e o Antonio. E com eles veio tudo mais em nossas vidas (inclusive essa vontade meio atrevida de filhosofar).
Olhando para tras, para os ultimos treze anos, e, ao mesmo tempo, para a frente, para os próximos cinquenta (por que não?), posso claramente ver e sentir todo o amor que existe no mundo. Apenas porque, Miroca, estamos juntos.
domingo, 24 de março de 2013
Dia de sorte
Íamos todos ao cinema.
Mas aí, o Antônio nos disse: "quero ficar com o papai".
Como gosto mais de passar o fim de semana ao livre, não pensei duas vezes: "Mi, então, vai você e o João assistir o filme, enquanto passeio com o Antônio".
Até andar a pé pela Ponte JK a gente foi (também jogamos pedras lá de cima, mas combinamos não contar para ninguém). E quando descansávamos um pouco no gramado do CCBB, onde fomos ver as engenhocas e andar nos robôs da exposição Cai Guo-Qiang, ele comentou: "hoje é meu dia de sorte".
E o fez daquele jeito dele, como quem não quer nada, com o olhar distante e esperando que eu perguntasse o porquê.
Com prazer, eu perguntei (pois eu sempre mordo a isca): "mas por que HOJE é o seu dia de sorte, meu filho?"
Respondeu de forma categórica: "porque eu tenho meu pai só para mim". E foi me levantando pela mão para a gente não perder tempo.
E o mais curioso é pensar que eu sempre sonhei em ser pai de menina por acreditar que apenas assim poderia ter uma criança pendurada em meu pescoço, me esperando chegar, com ciúmes de mim, com loucura por mim, enfim, grudada feito tatuagem.
Pois o Antônio é muito mais do que eu sonhei, é sorte na vida.
Mas aí, o Antônio nos disse: "quero ficar com o papai".
Como gosto mais de passar o fim de semana ao livre, não pensei duas vezes: "Mi, então, vai você e o João assistir o filme, enquanto passeio com o Antônio".
Até andar a pé pela Ponte JK a gente foi (também jogamos pedras lá de cima, mas combinamos não contar para ninguém). E quando descansávamos um pouco no gramado do CCBB, onde fomos ver as engenhocas e andar nos robôs da exposição Cai Guo-Qiang, ele comentou: "hoje é meu dia de sorte".
E o fez daquele jeito dele, como quem não quer nada, com o olhar distante e esperando que eu perguntasse o porquê.
Com prazer, eu perguntei (pois eu sempre mordo a isca): "mas por que HOJE é o seu dia de sorte, meu filho?"
Respondeu de forma categórica: "porque eu tenho meu pai só para mim". E foi me levantando pela mão para a gente não perder tempo.
E o mais curioso é pensar que eu sempre sonhei em ser pai de menina por acreditar que apenas assim poderia ter uma criança pendurada em meu pescoço, me esperando chegar, com ciúmes de mim, com loucura por mim, enfim, grudada feito tatuagem.
Pois o Antônio é muito mais do que eu sonhei, é sorte na vida.
quarta-feira, 20 de março de 2013
O João é o mais velho dos três
Se de fato somos trigêmeos, o João Pedro é, sem sombra de dúvida, o mais velho de nós três.
Vejam só.
Hoje, enquanto eu os aguardava no quarto para deitar e dormir, me pus a folhear um livro dos irmãos Grimm em busca da estória do Barba Ruiva, que o Antônio me pedira ainda no café.
Aí, o João entrou no quarto com uns quatro gibis na mão e foi logo deitando na cama para ler.
Numa reação quase involuntária de menino birrento, eu fechei o livro, com barulho (é aquela edição de capa dura ilustrada pelo J. Borges), e disse: "poxa, eu aqui esperando meus filhos para contar uma estória e você foi buscar gibis". E, por cima, fiz cara de desalento.
Ele, então, se levantou da cama, veio ao meu encontro, me abraçou pela cintura e, com a cabeça colada em meu peito, respondeu: "Pai, isso não significa que eu não quero ouvir sua estória. Eu quero sim. Só não quero que você vá dormir triste".
Definitivamente, é ou não o mais maduro de nós?
Vejam só.
Hoje, enquanto eu os aguardava no quarto para deitar e dormir, me pus a folhear um livro dos irmãos Grimm em busca da estória do Barba Ruiva, que o Antônio me pedira ainda no café.
Aí, o João entrou no quarto com uns quatro gibis na mão e foi logo deitando na cama para ler.
Numa reação quase involuntária de menino birrento, eu fechei o livro, com barulho (é aquela edição de capa dura ilustrada pelo J. Borges), e disse: "poxa, eu aqui esperando meus filhos para contar uma estória e você foi buscar gibis". E, por cima, fiz cara de desalento.
Ele, então, se levantou da cama, veio ao meu encontro, me abraçou pela cintura e, com a cabeça colada em meu peito, respondeu: "Pai, isso não significa que eu não quero ouvir sua estória. Eu quero sim. Só não quero que você vá dormir triste".
Definitivamente, é ou não o mais maduro de nós?
sábado, 16 de março de 2013
Gêmeos
Há tempos digo que somos trigêmeos. Pois viemos de um mesmo lugar para a Terra, saímos todos juntos. Só que primeiro eu cheguei, depois chegou o João e, então, o Antônio. Da perspectiva das estrelas, a diferença é insignificante.
Agora, na visão da mãe (que tirou esta foto para fazer prova), não é bem assim como eu conto.
Bom, olhando com calma e boa vontade, não dá pra negar que no essencial (como o branco dos olhos e o rodamoinho na testa, por exemplo) somos igualzinhos, né?
Agora, na visão da mãe (que tirou esta foto para fazer prova), não é bem assim como eu conto.
Bom, olhando com calma e boa vontade, não dá pra negar que no essencial (como o branco dos olhos e o rodamoinho na testa, por exemplo) somos igualzinhos, né?
segunda-feira, 11 de março de 2013
Muito além do peso
Já deveria ter postado este documentário há muito tempo.
O pior é que quem assistir vai acabar me culpando por não ter visto antes.
Tudo bem. Afinal nunca é tarde para mudar.
Esta é uma versão resumida. A versão completa do filme está disponível no youtube ou você também pode assistir o vídeo pelo site oficial! http://www.muitoalemdopeso.com.br/ind...
Você pode fazer download do filme em várias qualidades no link: http://www.muitoalemdopeso.com.br/ond...
MUITO ALÉM DO PESO
(Way Beyond Weight)
84', cor, classificação livre.
Obesidade, a maior epidemia infantil da história.
"Um filme obrigatório para qualquer pessoa que se importe com a saúde das nossas crianças" Jamie Oliver
Pela primeira vez na história da raça humana, crianças apresentam sintomas de doenças de adultos. Problemas de coração, respiração, depressão e diabetes tipo 2.
Todos têm em sua base a obesidade.
O documentário discute por que 33% das crianças brasileiras pesam mais do que deviam. As respostas envolvem a indústria, o governo, os pais, as escolas e a publicidade. Com histórias reais e alarmantes, o filme promove uma discussão sobre a obesidade infantil no Brasil e no mundo.
CRÉDITOS: (CREDITS)
Jamie Oliver, Amit Goswami, Frei Betto, Ann Cooper, William Dietz, Walmir Coutinho, entre outros.
Direção: Estela Renner
Produção Executiva: Marcos Nisti
Direção de Produção: Juliana Borges
Fotografia: Renata Ursaia
Montagem: Jordana Berg
Projeto Gráfico: Birdo
Trilha Sonora: Luiz Macedo
Produção: Maria Farinha Filmes
Patrocínio: Instituto Alana
quinta-feira, 7 de março de 2013
O bicho homem
“Papai, por que você está triste?”
Primeiro o Antônio. E depois o João Pedro me fez essa mesma pergunta enquanto jogávamos futebol nesse ultimo domingo.
Os dois estavam intrigados com o fato de eu estar brincando de cara fechada, taciturno e sem alegria.
Disse que não estava triste, mas apenas sério.
Não colou, é claro. Afinal, moleque bom, safo, não se engana assim facilmente. Na verdade, nem era essa minha intenção.
Apenas não queria encompridar a conversa, porque, por um lado, eu não sabia (naquele momento) explicar a eles a razão exata de minha tristeza. E, por outro, não queria que eles ficassem preocupados e imaginando o que poderiam ter feito de errado para me deixar daquele jeito.
Sim, estava triste. Apesar de ter vivido em família mais um final de semana de muita felicidade. Como de costume, felicidade simples, ou seja, aquela que alcançamos conversando, cozinhando, vendo tevê até mais tarde, passeando, brincando, enfim, simplesmente por ficarmos o tempo todo juntos.
E fiquei triste até a noitinha quando, depois de colocar os meninos pra dormir, pude conversar com a Mi e, então, compreender a causa de minha tristeza: enquanto almoçávamos na 104 Sul, os meninos brincavam com uns galhos cortados no gramadão que fica nos fundos do restaurante. De longe, lancei meu olhar rastreador-vigilante sobre entorno e notei uma pessoa mexendo no lixo, a uns 150 metros dos meus filhos. Já fiquei alerta. Quando essa pessoa, que aparentava ser um morador de rua, começou a se deslocar na direção dos meninos, de imediato me levantei e fui me colocar bem ao lado dos dois feito cão de guarda. Até aí tudo bem, pois, poderia dizer que a reação foi quase instintiva. O problema começa, ou melhor, a tristeza, quando o homem passa por nós desapercebido e eu finjo que não o percebo.
A situação fica ainda pior quando atravessamos a rua para tomar sorvete e pagamos por cada copinho o valor de R$ 10,60. Foi nesse instante, sem exagero, que me dei conta do que havia acabado de acontecer.
Poxa vida, como pude ser tão dissimulado? E pensar que há 15 anos eu trabalhava justamente para que a população de rua de Belo Horizonte deixasse a invisibilidade e pudesse ocupar espaços públicos na condição de gente e nao de lixo ou coisa que o valha. Sequer fui capaz de lançar um cumprimento, um aceno. O que teria acontecido comigo? Se eu digo o tempo todo que a paternidade fez de mim uma pessoa melhor, por que teria agido dessa forma?
Ainda não tenho respostas, embora venha pensando bastante sobre o que se passou no domingo e, principalmente, em mim (nos últimos anos?).
Ocorreu-me apenas os versos daquele poema "O bicho" de Manuel Bandeira:
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
Primeiro o Antônio. E depois o João Pedro me fez essa mesma pergunta enquanto jogávamos futebol nesse ultimo domingo.
Os dois estavam intrigados com o fato de eu estar brincando de cara fechada, taciturno e sem alegria.
Disse que não estava triste, mas apenas sério.
Não colou, é claro. Afinal, moleque bom, safo, não se engana assim facilmente. Na verdade, nem era essa minha intenção.
Apenas não queria encompridar a conversa, porque, por um lado, eu não sabia (naquele momento) explicar a eles a razão exata de minha tristeza. E, por outro, não queria que eles ficassem preocupados e imaginando o que poderiam ter feito de errado para me deixar daquele jeito.
Sim, estava triste. Apesar de ter vivido em família mais um final de semana de muita felicidade. Como de costume, felicidade simples, ou seja, aquela que alcançamos conversando, cozinhando, vendo tevê até mais tarde, passeando, brincando, enfim, simplesmente por ficarmos o tempo todo juntos.
E fiquei triste até a noitinha quando, depois de colocar os meninos pra dormir, pude conversar com a Mi e, então, compreender a causa de minha tristeza: enquanto almoçávamos na 104 Sul, os meninos brincavam com uns galhos cortados no gramadão que fica nos fundos do restaurante. De longe, lancei meu olhar rastreador-vigilante sobre entorno e notei uma pessoa mexendo no lixo, a uns 150 metros dos meus filhos. Já fiquei alerta. Quando essa pessoa, que aparentava ser um morador de rua, começou a se deslocar na direção dos meninos, de imediato me levantei e fui me colocar bem ao lado dos dois feito cão de guarda. Até aí tudo bem, pois, poderia dizer que a reação foi quase instintiva. O problema começa, ou melhor, a tristeza, quando o homem passa por nós desapercebido e eu finjo que não o percebo.
A situação fica ainda pior quando atravessamos a rua para tomar sorvete e pagamos por cada copinho o valor de R$ 10,60. Foi nesse instante, sem exagero, que me dei conta do que havia acabado de acontecer.
Poxa vida, como pude ser tão dissimulado? E pensar que há 15 anos eu trabalhava justamente para que a população de rua de Belo Horizonte deixasse a invisibilidade e pudesse ocupar espaços públicos na condição de gente e nao de lixo ou coisa que o valha. Sequer fui capaz de lançar um cumprimento, um aceno. O que teria acontecido comigo? Se eu digo o tempo todo que a paternidade fez de mim uma pessoa melhor, por que teria agido dessa forma?
Ainda não tenho respostas, embora venha pensando bastante sobre o que se passou no domingo e, principalmente, em mim (nos últimos anos?).
Ocorreu-me apenas os versos daquele poema "O bicho" de Manuel Bandeira:
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
O bicho homem era eu.
Rio, 27 de dezembro de 1947
Talvez esse homem seja eu.
Rio, 27 de dezembro de 1947
Talvez esse homem seja eu.
sexta-feira, 1 de março de 2013
Homem que é homem não chora?
Não sei se a frase “homem que éhomem não chora” ainda hoje vigora como regra fundamental na educação demeninos.
Sei que, quando era criança,ouvia e repetia essa oração à exaustão. Talvez por isso, tenha chorado muitopouco ao longo da vida. Certamente muito menos do que precisava.
Mas a minha falta de lágrimas (minhasecura, talvez) não é nem de longe a pior conseqüência da imposição dessaregra. Desconfio que o efeito mais nefasto seja mesmo o machismo e todahistória de discriminações e violências que essa crença estúpida na superioridade masculina tem acarretado.
Por outro lado, consigoidentificar e admitir a existência de uma norma de imenso valor à educação decrianças por detrás da regra “homem não chora”. Evidentemente, estou separando,ou melhor, distinguido a norma, que é um padrão de conduta social, do texto oudo enunciado pelo qual tentamos, em determinado tempo e lugar, descrevê-la (aexplicação para a diferença é demasiadamente complexa para este espaço, porém,cabe dizer que os textos normativos – as leis, por exemplo – produzidos numadeterminada época necessitam ser interpretados para que possam continuar a valer,isto é, serem reconhecidos como padrões sociais razoáveis, anos depois de teremsido editados).
A norma é: uma pessoa não devechorar à toa, mesmo se tratando duma criança.
Isso sim, creio que vale a penaensinar a meninos e meninas. Tanto ao João quanto ao Antônio já pude dizer que “homemchora, mas não por qualquer bobagem”. Uma coisa é se emocionar por algo que nostoca, seja na alegria ou na tristeza, no prazer ou na dor. Outra coisa é viverchorando por incapacidade de expressar sentimentos com ações, gestos e,sobretudo, com palavras.
Os dois, cada um a seu modo,nunca foram de dar birras e de chorar para tentar obter o que desejavam. Eleschoram quando sofrem, de verdade.
O João chora mais, porque ele étodo sentimento, um menino de alma e olhos claros.
Outro dia, deitado na cama entreos meninos, comecei a cantar aquela música do Vinicius e do Toquinho “menininhado meu coração, fique pequenininha na minha canção...” e o João Pedro chorou desoluçar porque, segundo ele, “a música era muito linda e triste”.
Esse é o nosso Dedé.
Desde pequenininho(neste video ele tinha apenas dois anos e meio) o João já dava sinais de que mais vasto do que o mundo era o seu coração. Quem sabenão teria sido melhor chamá-lo Raimundo?
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
Lições de Justiça e de Astronomia
Mais duas do Antonio. Com ele a vida é assim: uma atrás da outra.
Ontem em torno das sete da noite, quando ainda estávamos na estrada e já próximos de Brasília, ele disse (como se estivesse falando sozinho): "Tem uma coisa que não é justa na CGU".
Eu cutuquei a Mi para verificar se havia escutado corretamente. E ela, com um olhar, sugeriu que aguardássemos o que estava por vir.
E, então, Antônio arrematou: "O papai tem que ir trabalhar logo que a gente chega. Não é justo, ele deveria descansar da viagem".
Depois de descarregar o carro e de contar aos meninos que na quarta-feira de cinzas eu só iria trabalhar a tarde, fomos a pé tomar canja num restaurante ao lado de casa. A Mi, olhando pro céu, nos contou que seu pai dizia que as Três Marias eram suas filhas (ela e suas duas irmãs). Sem perder a deixa, como de praxe, Antônio corrigiu: "Nada disso, sou eu, o João e o papai".
E o pior é que eu só consigo dormir com esse barulho todo.
Ontem em torno das sete da noite, quando ainda estávamos na estrada e já próximos de Brasília, ele disse (como se estivesse falando sozinho): "Tem uma coisa que não é justa na CGU".
Eu cutuquei a Mi para verificar se havia escutado corretamente. E ela, com um olhar, sugeriu que aguardássemos o que estava por vir.
E, então, Antônio arrematou: "O papai tem que ir trabalhar logo que a gente chega. Não é justo, ele deveria descansar da viagem".
Depois de descarregar o carro e de contar aos meninos que na quarta-feira de cinzas eu só iria trabalhar a tarde, fomos a pé tomar canja num restaurante ao lado de casa. A Mi, olhando pro céu, nos contou que seu pai dizia que as Três Marias eram suas filhas (ela e suas duas irmãs). Sem perder a deixa, como de praxe, Antônio corrigiu: "Nada disso, sou eu, o João e o papai".
E o pior é que eu só consigo dormir com esse barulho todo.
sábado, 19 de janeiro de 2013
Adultianas nº 1
Finalmente assisti o filme "Coração Vagabundo". Um documentário sobre Caetano Veloso.
E depois de ouvi-lo dizer (ele), caminhando embasbacado por Nova Iorque, que não podia ser um cara naturalmente cosmopolita porque tinha vivido até os 18 anos em Santo Amaro me dei conta do porquê gostava dele para caramba.
Se eu pudesse escolher, claro, gostaria mais do Chico. Mas o diabo é que minha caipirisse me aproxima do Caetano.
No fundo, não há como me livrar do fato de que também vivi até os 18 anos em Catanduva (que deve ser algo como Santa Amaro da Purificação no interior de São Paulo).
Bem que eu gostaria de me reconhecer na sofisticação do Chico Buarque e de me sentir à vontade no Pacaembu. Ou em Paris. Ou em Roma. Ou com a Marieta.
As vezes me dá pena de ser tão jeca tatu.
E depois de ouvi-lo dizer (ele), caminhando embasbacado por Nova Iorque, que não podia ser um cara naturalmente cosmopolita porque tinha vivido até os 18 anos em Santo Amaro me dei conta do porquê gostava dele para caramba.
Se eu pudesse escolher, claro, gostaria mais do Chico. Mas o diabo é que minha caipirisse me aproxima do Caetano.
No fundo, não há como me livrar do fato de que também vivi até os 18 anos em Catanduva (que deve ser algo como Santa Amaro da Purificação no interior de São Paulo).
Bem que eu gostaria de me reconhecer na sofisticação do Chico Buarque e de me sentir à vontade no Pacaembu. Ou em Paris. Ou em Roma. Ou com a Marieta.
As vezes me dá pena de ser tão jeca tatu.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
Talvez o amor seja o nome do Leão
-- Dizem que Aslam está a caminho; talvez até já tenha chegado.
E aí aconteceu uma coisa muito engraçada. As crianças ainda não tinham ouvido falar de Aslam, mas no momento em que o castor pronunciou esse nome, todos se sentiram diferentes [...]
Ao ouvirem o nome de Aslam, os meninos sentiram que dentro deles algo vibrava intensamente.
[...]
Pois, mais uma vez, tinham sido envolvidas por aquela sensação que lembrava os primeiros sinais da primavera, e que parecia trazer notícias maravilhosas.
São trechos do livro Crônicas de Nárnia de C.S. Lewis, que há tempos leio, sem qualquer regularidade, com os meninos antes de dormir. E são os trechos de que mais gosto. Gosto, porque me lembro do tempo em que desejei profundamente que o nome de Deus pudesse me soar como o rugido protetor desse poderoso Leão. Sobretudo, gosto, porque, ao me lembrar, me dou conta de que não desejo mais.
Hoje, quando o dia me parece escuro e frio, basta eu pronunciar em silêncio "João Pedro" e depois "Antônio" para que um halo quente e cintilante envolva o meu corpo, alterando tudo ao meu redor.
Ontem, por exemplo, foi só dizer bem baixinho o nome dos meninos e fiz parar de chover na Asa Sul de Brasília.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
A lógica do cão
Curioso isso... Um bocado de tempo sem postar coisa alguma e apareço novamente pra registrar mais uma apresentação eloquente (sempre eloquente) da lógica da cabeça do Tunico.
Ao longo desse tempo todo, foram muitas dessas apresentações. Algumas de cair o queixo. Outras dignas de aplauso.
Mas tenho me segurado, sobretudo, para ajudá-lo a conter nele mesmo uma certa propensão às exibições públicas, ao espetáculo, enfim, à dependência da audiência; que, a meu ver, já começa a atrapalhá-lo (talvez um dia eu faça nova aparição por aqui só pra falar desse tema).
Vamos aos fatos: estávamos nós em loooooonnnnnngggaaaaa viagem de férias, pai e mãe se desdobrando para entreter dois moleques sedentos de avós, tios, amigos, bichos, espaços, brincadeiras, enfim, de Catanduva. E aí, quase já sem estórias pra contar, saquei de minha cartola mágica a seguinte pergunta: "Quem é que sabe a diferença entre cão e cachorro?"
O João Pedro pensou um pouco e disse: "Não sei". Depois, com a ajuda da mãe, ponderou um pouco mais e afirmou: "Não tem diferença, as duas palavras falam do mesmo animal".
Antes que o Antônio se pronunciasse, eu sentenciei: "Certíssimo, João, 'cão e cachorro' têm o mesmo significado, é que você, no ano que vem e na nova escola, vai chamar de sinônimos."
Mal terminei e o Tunico já estava se opondo. Ele respondeu: "Não! Tem diferença, sim. Porque cão é um cachorro mais bravo, como pitbul e... (e não me lembro o outro exemplo que ele deu)".
Como de costume, eu retruquei: "Como assim?"
Ele então explicou a todos nós, comigo dando uma mãozinha, que todas as placas penduradas nos portões das casas avisando que existe um "cachorro bravo" dizem "cuidado, cão bravo". Logo, de acordo com sua lógica que nunca havia registrado uma plaquinha dizendo "cuidado, cachorro bravo", cão é diferente de cachorro, porque diz respeito a um animal necessariamente perigoso.
Apenas para não confundir o João com o silogismo do Antônio, tive de esclarer que, de fato, as plaquinhas só traziam a palavra cão. Porém a razão era outra: é que a palavra cão tem menos letras do que cachorro o que facilita o registro e a leitura.
Mesmo assim fiz festa pela grandeza do raciocínio.
E o mais inacreditável disso tudo (ao menos para um pai-coruja como eu) é que o fio-da-mãe-desse-molequinho ainda é analfabeto.
Ao longo desse tempo todo, foram muitas dessas apresentações. Algumas de cair o queixo. Outras dignas de aplauso.
Mas tenho me segurado, sobretudo, para ajudá-lo a conter nele mesmo uma certa propensão às exibições públicas, ao espetáculo, enfim, à dependência da audiência; que, a meu ver, já começa a atrapalhá-lo (talvez um dia eu faça nova aparição por aqui só pra falar desse tema).
Vamos aos fatos: estávamos nós em loooooonnnnnngggaaaaa viagem de férias, pai e mãe se desdobrando para entreter dois moleques sedentos de avós, tios, amigos, bichos, espaços, brincadeiras, enfim, de Catanduva. E aí, quase já sem estórias pra contar, saquei de minha cartola mágica a seguinte pergunta: "Quem é que sabe a diferença entre cão e cachorro?"
O João Pedro pensou um pouco e disse: "Não sei". Depois, com a ajuda da mãe, ponderou um pouco mais e afirmou: "Não tem diferença, as duas palavras falam do mesmo animal".
Antes que o Antônio se pronunciasse, eu sentenciei: "Certíssimo, João, 'cão e cachorro' têm o mesmo significado, é que você, no ano que vem e na nova escola, vai chamar de sinônimos."
Mal terminei e o Tunico já estava se opondo. Ele respondeu: "Não! Tem diferença, sim. Porque cão é um cachorro mais bravo, como pitbul e... (e não me lembro o outro exemplo que ele deu)".
Como de costume, eu retruquei: "Como assim?"
Ele então explicou a todos nós, comigo dando uma mãozinha, que todas as placas penduradas nos portões das casas avisando que existe um "cachorro bravo" dizem "cuidado, cão bravo". Logo, de acordo com sua lógica que nunca havia registrado uma plaquinha dizendo "cuidado, cachorro bravo", cão é diferente de cachorro, porque diz respeito a um animal necessariamente perigoso.
Apenas para não confundir o João com o silogismo do Antônio, tive de esclarer que, de fato, as plaquinhas só traziam a palavra cão. Porém a razão era outra: é que a palavra cão tem menos letras do que cachorro o que facilita o registro e a leitura.
Mesmo assim fiz festa pela grandeza do raciocínio.
E o mais inacreditável disso tudo (ao menos para um pai-coruja como eu) é que o fio-da-mãe-desse-molequinho ainda é analfabeto.
quarta-feira, 7 de março de 2012
A lógica dos cinco
Para Marcelo e Angélica
O Antônio fez 5 anos na última segunda-feira.
Portanto, resolvemos comemorar seu aniversário no
sábado, dois dias antes da data, junto com os nossos amigos mineiros, que são —
para todos os efeitos — a nossa grande família aqui em Brasília.
Sem prejuízo, no entanto, da realização de uma
segunda festinha no dia exato de seu nascimento: 5 de março.
No domingo à noite, um dia depois da primeira
festa, minha mãe ligou para parabenizá-lo mais uma vez. No meio da conversa
(sempre longa e divertida) ela deve ter comentado com o Antônio que “ele já
havia preenchido uma mão inteira com os seus anos de vida”. Foi a deixa para que
ele emendasse numa rigorosa demonstração lógica: “Sim vovó; e amanhã eu vou
juntar mais um [dedo], porque vai ter outra festa na minha escola. Aí vou ficar
com... [ele parou um pouquinho para contar os dedos] 6!”
Minha mãe não entendeu o raciocínio e, quando ele
percebeu isso, me passou logo o telefone para que eu tentasse explicar.
Nem tentei,
apenas ri satisfeito diante daquele gigantesco feito da inteligência do bichinho.
Ei-lo na íntegra:
- Em toda festa de aniversário a gente comemora e ganha um “dedo” de vida a mais.
- Ontem, sábado, comemorei e ganhei mais um, totalizando cinco anos.
- Amanhã terei outra festa de aniversário e, logo, vou ganhar o sexto [dedo].
Evidentemente, o silogismo (e o Antônio) parte de
uma premissa falsa segundo a qual basta fazer festa de aniversário para que se
faça aniversário. Um detalhe insignificante que o tempo, a cultura e suas
próprias experiências hão de corrigir (se a escola não atrapalhar, é claro).
De qualquer forma, o essencial já está lá:
guardado dentro de sua preciosa cabeça.
Depois não querem que eu seja coruja.
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Show de encerramento do dia dos pais
O dia dos pais é mais importante pra mim do que o meu aniversário.
É verdade que nunca gostei de comemorar aniversário, mas também colocaria o dia dos pais muito acima de qualquer outra data festiva. Pois, nada se compara ao segundo domingo do mês de agosto.
Aqui está o Filhosofias que não me deixa mentir.
Aqui está o Filhosofias que não me deixa mentir.
A gente já tinha assistido ao "Música de brinquedo" no SESC de Rio Preto, porém a chuva torrencial, a hora adiantada, a febre incessante (do João) e o público em excesso estragaram o espetáculo. Hoje não, estava tudo impecável, como registra este video:
Hoje, depois de eu invocar meu direito (como "pai do dia") de escolher aonde iríamos jantar quando acabasse o show do Pato Fu no Parque da Cidade, o Antônio me perguntou quando é que seria o "dia dos filhos". Como se todos os dias não fosse...
Bom, quanto a este dia dos pais só faltou mesmo o meu pai. Queria muito ter podido abraçá-lo e passar o dia ao seu lado, junto com meus filhos.
Por isso, decidimos que da próxima vez que viajarmos para Catanduva será, novamente, dia dos pais. Pelo menos do meu.
Por isso, decidimos que da próxima vez que viajarmos para Catanduva será, novamente, dia dos pais. Pelo menos do meu.
sábado, 6 de agosto de 2011
Eles cantam no chuveiro
A gente vive se perguntando se nossos filhos são felizes, se serão felizes e se terão filhos felizes e etecétera e tal.
Sei não. Também tenho as minhas dúvidas.
Mas que eles soltam a voz no banho, ah isso eles fazem!
Sei não. Também tenho as minhas dúvidas.
Mas que eles soltam a voz no banho, ah isso eles fazem!
Uma lágrima de amor
Em outubro do ano passado escrevi sobre o parto do João Pedro. Postei uma foto registrando o exato momento em que nos reconhecíamos como pai e filho, olhos nos olhos.
De lá pra cá, ao longo de seus sete anos de vida, vivemos outros tantos momentos de intensa cumplicidade. Sempre decorrentes de um gesto discreto e comovente do João. Assim, espontâneamente, como por encanto, o meu filho "faz algo", cria um momento mágico que me envolve completamente, me arrebata.
Na maioria das vezes estamos só nós dois. E, por isso, depois da chegada triunfal do Tunico Pinico e da marcação cerrada que ele impôs sobre mim, admito que são menores as chances que tenho com o João.
Mas hoje, finalmente, aconteceu de novo. Estávamos os três na sala brincando de playmobil quando comecei a cantar uma versão adaptada daquela música do Vinicius: "Menininhos do meu coração, fiquem pequeninhos na minha canção, companheiros levados, batendo palminhas, fugindo assustados do bicho-papão...".
De repente, olhei para o João Pedro e ele estava me encarando com ternura.
Surpreso, perguntei: "O que foi filho?"
E ele respondeu: "Não sei papai... Que bonita essa música. Foi você que fez?"
"Não filho, não fui eu quem fiz, mas desde que você nasceu inventei um novo jeito de cantá-la", expliquei.
Aí, "plim", ele fixou os seus olhos (marejados) nos meus e derramou uma lágrima.
Senti meu coração pulsando juntinho com o dele quando o abracei. Foram alguns segundos de uma harmonia preciosa até que o Antônio pulasse nas minhas costas e exigesse minha atenção.
Agora me dei conta que deveria ter recolhido aquela lágrima de amor, porque tenho certeza que ela teria o poder de cicatrizar até as chagas de Cristo. No entanto, se foi, rapidamente passou; aliás, como passa a vida.
domingo, 31 de julho de 2011
Comentando comentário - saudades e esperança
Hoje, enquanto os meus pais arrumavam as malas pra voltarem a Catanduva (depois de um fim de semana afetivamente intenso aqui conosco em Brasília), o Antônio "nos comunicou" que também voltaria com o vovô e a vovó.
Desde ontem ele vinha tentando convencer seus avós a ficarem mais uns dias. Argumentou de todas as maneiras: chegou até a orientar minha mãe sobre como fazer para organizar à distância o trabalho na Loja.
Então,quando ele percebeu que não poderia fazê-los ficar, não hesitou e tomou a decisão de voltar pra sua antiga casa.
Nunca foi tão difícil demovê-lo.
Sobretudo, porque compreendo e reconheço perfeitamente os motivos que o levaram à decisão de voltar. Cito apenas dois (pra não chorar): aqui ele não tem nem dez por cento da liberdade que tinha em Catanduva e, pra piorar, ainda não tem amigos. Foi duro ouví-lo dizer, aninhado em meu colo, que "precisava voltar porque senão ia esquecer os nomes dos seus amigos". Respondi que ele poderia ligar para eles e vê-los pela internet, mas ele retrucou de forma incisiva me dizendo que "não queria falar, mas brincar com seus amigos".
Li o comentário da Sandra e me lembrei (mais uma vez) daquela música do Peninha (ou do Caetano?) chamada "Sonhos" que diz assim: "Ter saudade até que é bom, melhor do que caminhar sozinho. A esperança é um dom que eu tenho em mim. Eu tenho sim".
Acho que vou ter que repetir na frente do espelho como no terço bizantino: "eu tenho sim".
Mas vou esperar (de esperança) até amanhã à noite quando encontrá-los em casa depois do primeiro dia de aula na Moara.
Boa noite, meninos.
terça-feira, 26 de julho de 2011
Saudades de menino
Depois do Antônio quase me matar (de remorso?) há duas semanas ao me dizer, meio ensimesmado, que estava com saudades de seus amiguinhos, hoje, enquanto oferecia aos meninos a última refeição da noite, o João Pedro me mostrou uma caixa, parecida com as antigas caixas de sapatos, atada com uma fita branca com a qual ele também prendeu uma tulipa de plástico.
"É um presente, meu filho? Para mim?", perguntei.
"São vários presentes que vou mandar para o Gui lá em Catanduva", ele respondeu.
E foi logo desatando o nó para me mostrar o que havia dentro. Retirou uns dez pequenos brinquedos, inclusive um chaveiro com bússola que eu lhe dera de presente.
"Mas por que você vai dar isso tudo pro Gui? Até o seu chaveiro?", questionei.
E ele, com aquele jeito doce e generoso que é só dele, me disse que era "pra agradecer a amizade que eles tiveram" e, quanto ao chaveiro-bussúla, respondeu-me que podia usar o do Antônio.
Reagi dizendo que a amizade entre eles não havia acabado, porque amigo de verdade é amigo pra sempre e em qualquer lugar.
Mas fiquei comovido mesmo quando ele me mostrou o bilhetinho escrito para acompanhar a caixa: "Gilherme eu juão te mando um abrassauo. estou com saudades e fala para leticia que eu amo ela fim".
Só não me desfiz num choro torrencial, porque a estiagem anda tão braba por aqui que deve ter desidratado meu coração.
Ainda bem que os meninos têm um ao outro:
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